sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Primeiro de setembro

Me disse que eu sou o que tu viu; eu disse que não, que sou outra pessoa, bem melhor. Ah, se tu escutasse… mas tem nada não, visse? Tá tudo bem, tou todo bem, eu te disse. Mentira, disse não. É porque não tou, entendesse? Tu fosse embora bem antes de ir, e muito ainda antes que eu notasse. Depois que eu notei, já era tarde, eu já tava numa mesmice, bem diferente da tua. Entrei na tua, tu saísse, eu fiquei. E tou aqui até agora, sem saber porque tu num ficasse. Mentira, sei sim. Tu num ficasse porque tu percebesse que era melhor se tu tivesse sozinha, sem ninguém além daquela coisa ocasional com quem quer que fosse. Teu negócio não era a minha mesmice, não era mesmo. Eu devia ter sido melhor, eu sei disso. Só que eu sei que sou melhor, sabe como é? Eu sei disso. Mas tu começasse a me tratar que nem tratasse ele: na coleguice. Te lembra? Depois daquele dia que tu não dormisse comigo, eu me peguei pensando se tu ainda queria que desse. Depois me dei conta que não, tu já tinha saído dessa. E eu lá, deitado de bruço, imaginando que se tu deitasse e eu pudesse mudar o que tu pensasse… mas de novo, já era tarde e tu nunca mais falasse disso, até hoje. E eu aqui esperando; tu já pensasse? Homem feito, morrendo de saudade e escrevendo essa pieguice, numa esperança coberta de ilusão e salpicada com criancisse. É foda, visse? Eu tava no caminho do laço, tu disse que tava dentro do nó do laço, e de repente, como se a gente caísse num poço, não tem mais nada disso. É tenso, eu queria ter sido diferente, mas agora já era, tu já olhasse aqui dentro e, aparentemente, não gostasse do que visse. O pior que mesmo que eu tentasse, não ia dar e, mesmo que eu conseguisse, não ia segurar e, na possibilidade escassa de que eu mantivesse isso, o cansaço ia chegar e eu ia voltar a essa tristeza seca do começo. Tu se decepcionasse, e eu mais ainda. Comigo, sabe? Mas enfim.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Residência II

assentei com as próprias mãos
um quarto em teu pensar
no teu seio, fiz repouso
deitei, cômodo
e criei, mudo
o que sentia, só
no reboco, parede branca
buraco de armador
ruído de rede
o ranger: saudade atroz







segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Os bilhetes para Maurício 5/622

eu vi. a bicha é mais bonita que a rapa do tacho de canjica.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Uma xícara de cólera.


Ela fez uma pausa, coçou o nariz. A rinite atacava. Sempre atacava durante as viagens. A voz feminina no sistema de som anunciava o próximo vôo. Eu continuava calado, olhando alternada e lentamente para ela e para as pessoas que passavam com malas, bolsas e casinhas de cachorro feitas de espuma. Pensava em como sabia de tudo que ela estava dizendo, e pensava em como estava surpreso por não estar triste, nem decepcionado, ou machucado. Três anos loucos de banhos de mar à noite, de ressacas homéricas e de viagens-surpresa, apenas pra matar a saudade. Três anos dos mais desastrosos jantares, do sexo mais aperreado e sem planos; a falta de plano foi o motto daquela relação. E agora ele havia se esgotado. Eu entendia cada palavra que ela dizia, mas a única coisa que pensava agora era nela. Me preocupava com ela, com a rinite. Ela ia pegar o vôo de volta? Havia acabado de descer, será que planejou isso? Será que iria ficar no Rio? Acho que sim, que ela iria ficar na casa de Renata. Não sabia e queria perguntar, mas ela começou a esbravejar novamente. Eu continuava sabendo exatamente do que ela estava falando, mas não conseguia tirar os olhos das duas narinas dela, tão vermelhas. Será que ela trouxe a loratadina? Ela não parava de falar. Alguma coisa sobre compromisso e confiança. Eu escutava, entendia cada insulto mas, ainda assim... Eu acho que tenho um pouco ainda, no carro. Antialérgico, digo. Agora ela falava sobre perder tempo e dinheiro, e passagens de avião e excesso de bagagem. Eu não sabia onde ela tinha arrumado tanta tralha. Eram só 3 dias. Ela sempre fazia isso. Da outra vez a gente acertou de se encontrar em Búzios depois de todo aquele frenesi de datas, horários, passagens, reservas e a porra toda. Feriadão de nossa senhora. Ela me chega com a merda da mala de rodinha faltando uma rodinha. Quebrou na saída, ela me disse. Claro. Uma caralhada de troço sem futuro. E ainda tinha que subir a ladeira da pousada, de pedra também. Porra, eu adorava aquela mulher, e ela tava ali na minha frente, com o nariz fodido, tinha pego dois vôos, jet lag pesado batendo na cabeça. E eu ali, escroto, pensando em mandar ela de volta. Foda. Mas puta que me pariu, eu não aguentava mais ficar olhando pra mão dela subindo e descendo pelo nariz e a cada fungada parecia que ia explodir - eu e o nariz. Os olhos dela iam ficando cada vez mais vermelhos e eu comecei a achar que ela estava falando em grego antigo. Não conseguia entender mais nada, não conseguia processar. Os olhos dela lacrimejavam tanto que eu estava em dúvidas se ela estava chorando ou se a rinite estava condensando ranho em lágrimas. Que bagunça. E todos nos olhavam. Eu procurava, com os olhos, um lugar pra me esconder e cada vez que meu olhar recaía sobre a placa que dizia ''sanitários'' ela batia na mesa, forte. O saleiro, porta-guardanapos e etc balançavam, faziam barulho; a colherinha saltava dentro da xícara e fazia quele barulho metálico. Eu olhava de novo pra ela. Das três primeiras vezes, meio assustado. Agora, já voltava a olhar pra ela com impaciência. Puta que me pariu, como eu queria um cigarro. Enquanto ela falava sobre a semana passada, no dia do aniversário do infeliz do cachorro. Aniversário de cachorro. Ela me carregou pro aniversário de um cachorro que nem era dela. Foda. Eu me senti penetra numa festa de cachorro. Enfim, ela me chamando de insensível e eu pensava justamente em escrever esse texto. Talvez eu seja insensível mesmo. Foda-se, eu não aguentava mais. Vou acender um cigarro aqui no saguão mesmo, na esperança de que algum segurança peça pra eu me retirar. Eu vou negar, ele vai dizer que vai ser forçado a me retirar. Vou mandar ele me retirar e, quando ele encostar em mim, vou dizer que ele não pode fazer isso. Vou causar uma confusão. Daí vou ser retirado à força e ela vai ficar lá, lacrimejando, com o nariz escorrendo e três malas coloridas. E eu lá fora, fumando meu cigarro e pensando onde foi parar a mulher que disse que me amava enquanto eu batia na bunda dela. Filho da puta insensível, foi o que ela disse agora. Consegui escutar. Talvez eu não acenda o cigarro, enfim. Gostaria de sentir pelo menos raiva, pelo menos algo. Algo que me impulsionasse a também discutir, a dizer o quanto ela era falsa, fútil e mentirosa; o quanto eu tive que aguentar as mentiras dela. Que ficou presa no trânsito, que a bateria tinha acabado, que Ivan era só amigo e tava ajudando a resolver as burocracias do financiamento. Eu era todo ouvidos agora, mas continuava sem entender porra nenhuma. Um monte de semântica ininteligível. Eu deixava ela falar, ficava olhando pra xícara. Analisando cada imperfeição. Tinha uma microrachadura. Eu estava me segurando, me forçando a não segurar aquela taza com as mãos e analisar melhor. Talvez tenha rachado enquanto alguém lavava com pressa, pra terminar de arrumar tudo e ir embora, fechar o café e ir pra casa, pegar ônibus, metrô, fazer baldeação na Sé e seguir pro Brás ou pra Vila Matilde. Enfim. Cansei de escrever.

domingo, 13 de agosto de 2017

As partes de una muchacha uruguaya






Triste y loca, foi a primeira coisa... perdão, a segunda coisa que ela me disse. Che, soy triste y loca, no te acerqués. Eu tinha saído pra fumar um cigarro. Tateei meus bolsos todos, de cada camada de roupa - uma jaqueta de couro, uma blusa, calça jeans - e nada. Nenhum sinal do maço de American Spirit que eu vinha fumando feito um degenerado nos últimos dias. Entrei novamente pela porta do Ramón, o pub derrubado onde estávamos Oscar e eu, meu amigo chileno. Voltei à mesa, interrompi a conversa com uma amiga espanhola dele, que apareceu lá. Perguntei se havia visto os cigarros, disse que não. Olhei embaixo, ao redor. Perguntei a um casal ao meu lado se haviam visto um maço amarelo, disseram que não. Saí novamente, refazendo meus passos olhando para o chão cuidadosamente. Talvez eu tivesse deixado cair, sei lá. Lá fora, olhei a calçada, olhei detrás do tonel de óleo que servia de mesa; nada. Pus as mãos na cintura, franzi a testa, coçei a espinha que nascia próxima à nunca; nada. Me emburrei por ter perdido meio maço de cigarros e já tinha decidido ir embora quando escutei aquele sotaque clássico, melódico, cantado, detrás: ''Oye, tenéis fuego?''. Me virei e dei de cara com uma mulher nos seus vinte e poucos anos, baixa. Sardas, muitas sardas, milhares delas. Foi a primeira coisa que eu notei. Seu rosto angulado estava salpicado delas. As maçãs levemente coradas pelo frio, também a ponta do nariz pequeno. Os olhos tinham uma acentuação indígena, ligeiramente inclinados para dentro. Ficou esperando minha resposta. Calado, sem conseguir desviar os olhos, meti a mão no bolso da jaqueta e entreguei meu zippo, tão querido por mim. Comprado em Nápoles exatamente um ano antes. Engraçado como enquanto eu dirigia o isqueiro à mão dela esse pensamento me ocorreu. Um ano atrás eu estava em Nápoles, fazia tanto ou mais frio e eu tinha acabado de tropeçar no último degrau da stazione toledo, precisamente porque vinha tentando acender o cigarro. Tropecei, foi cigarro pra um lado, isqueiro pra o outro, alguém o  chutou e nunca mais eu vi. Eu estava completamente bêbado, afinal. Fui andando em direção ao café Varriali, encontrar Oscar e os outros. No meio do caminho, uma loja Tabacchi/Lotto estava aberta. Entrei com a intenção de comprar um isqueiro barato e saí com o zippo que agora a uruguaia de olhos índios usava pra acender seu cigarro. Inspirou longamente, olhou para o céu, expirou a fumaça, pôs o cigarro novamente na boca e lembrou que não tinha agradecido e nem devolvido o isqueiro. Inspirou mais uma vez, me entregou o mechero e disse ''gracias'' rapidamente, balançando a cabeça e expirando olhando para o outro lado. Eu continuei calado, não entendia muito bem ainda que beleza era aquela e não tinha decidido se ela era tão bonita quanto eu achava que estava vendo. ''Me regalás uno?'' perguntei. Não disse nada, apenas me estendeu um maço de American Spirit amarelo. Olhei surpreso. Peguei um dos cigarros, acendi e continuei calado. ''Me roubou o cigarro, uruguaia safada'', pensava, enquanto tragava lentamente. Me virei e me aproximei dela. Ia dizer que tinha deixado o maço cair, que era meu, mas ela se virou, me olhou com um tom repreensivo - leve, admito, mas repreensivo - e disse aquelas segundas palavras. Che, soy triste y loca, no te acerqués. Sorri amarelo. Continuei olhando para ela, mas já não me olhava. Ela estava nas últimas tragadas enquanto eu pensava se devia perguntar ou não, se deixava ela sair com meu cigarro ou não. Tragou forte e, impaciente atirou a bituca longe, no meio da rua. Olhou pra mim, soltou a fumaça e disse ''quédate con esta mierda'' e entrou batendo forte a porta do Ramón.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Conversando com Lúcio

você me lançou de volta;
eu, garrafa ao mar.
você me desenterrou à beira da praia
numa madrugada molhada
eu, garrafa ao mar
no limiar do esquecimento
apenas uma réstia de vidro aparente
você me pegou em seus dedos finos
anéis, bracelete, pulseira e búzio
eu, garrafa ao mar
pude sentir cada olhar seu
admirando cada mancha
arranhão, lasca, sujeira, rachadura
você me acariciou, afagou
me girou nas mãos
a mim, garrafa ao mar
e tentou enxergar por entre
o opaco de tantos anos
sob a maresia, o sol, as chuvas
areia, pedras e cascos de velhas jangadas
um opaco de tantos anos vindo
e indo por mares sem glória
eu, garrafa ao mar
depois de todo esse tempo à deriva
mas muito mais tempo sob a areia
estava entre as suas mãos
sentia cada toque, ainda que sutil
ainda que escasso, ainda que não-merecido
na tentativa inútil e vã
de enxergar o que havia dentro
mas eu, garrafa ao mar
era um vidro quase oco, quase vazio
quase calado, quase sem mensagem
e  à única luz da noite
num minúsculo papel amarelado e roto
gasto, esmorecido, desbotado
no limiar da  dissolução
se lia:
me lance de volta ao mar



quarta-feira, 9 de agosto de 2017

As cartas para Ana 17/∞

Ana, eu sei que esta deveria ser a última carta, que é o nosso - meu - acordo, e que eu deveria parar por aqui, eu sei. Não pense Ai, mais uma, meu deus, por que você não me esquece, não pense isso Ana, por favor. Mas é que eu não consegui absorver toda a sua energia, essa sua força. Eu tentei, você sabe que eu tentei.
Todas aquelas vezes em que você simplesmente queria ficar trancada no quarto, escutando PJ Harvey  - I'm begging, Jesus, please send his love to me - e escrevendo no seu diário - você ainda tem todos, desde os 9 anos -, e aí você para de escrever, se levanta, dança um pouco sozinha no quarto, olha pela janela, acende um cigarro, repara no edifício em frente - um monte de janelinhas, cada uma com vida própria - imaginando quem são aquelas pessoas dentro daquelas salas - e você até conhece uma delas, Moacir, o dono da padaria, e consegue vê-lo através da janela fazendo polichinelos às duas da manhã. Você apaga o cigarro no trilho de metal da janela - que você adotou como cinzeiro -  e volta pra cama, continua a escrever no diário. Nada disso é mistério para mim, é claro, porque eu sempre vi você fazendo essas coisas. Lembra quando chegamos bêbados às quatro e doze - guardamos essa hora pra sempre - e achamos que Moacir estava atrasado pro pão do dia e combinamos de gritar juntos moacir, no três? E quando cheguei no dois você segurou meu braço e disse Peraí, mas é um dois três moacir ou um dois três e moacir? e eu disse um dois três moacir, você disse ok e lá fomos nós um dois e você segurou meu braço novamente e perguntou Mas vai ser um moacir curto tipo moacir! ou um moacir longo tipo moaciiiiiir? Eu falei que é óbvio, Ana, é óbvio que seria um moacir longo, segurando no i porque fazia mais sentido e você concordou bêbada, daquele jeito bem infantil, fechando os olhos, apertando os lábios e acenando exageradamente com a cabeça, para cima e para baixo e fomos de novo um dois três moaciiiiiiir mas você não chegou a terminar, lembra, porque você começou a rir, inclusive você deu aquelas risadas meio presas que escapam como um cuspe, e acho que até hoje deve ter um pedaço de esfiha de carne mastigada naquele vidro. 
Ana, você era assim, talvez até seja, infelizmente eu não sei mais, mas espero que sim. Talvez você fosse assim porque você estava comigo e talvez você até olhe para trás e pense Que ridícula eu era. Talvez... gostaria de saber. Minto, não gostaria. Esse mundo é meu, essa vida é minha, esse passado é meu. Vou deixá-lo como está.
Mas sim, a sua força. Você sempre teve isso de não ceder a certos impulsos, principalmente se estes impulsos fossem causados por outra pessoa. Não. Você seguia lá, firme, irredutível. Acho que você maturou essa característica enquanto dava as aulas de inglês e os pirralhos se matavam ou faziam as chantagens emocionais típicas das crianças do Leblon. Quando sua mãe tinha aqueles acessos de cobrança que antes lhe irritavam tanto e depois você simplesmente a deixava falando sozinha e eu dizia Ana, ligue para ela e você dizia que não, que era exatamente isso que ela queria e que enfim... As coisas entre você e a sua mãe eu desisti de entender pouco tempo depois desse dia.
Mas então, a sua força. Você não deixava mais as pequenas coisas cotidianas te abalarem. O vazamento eterno do banheiro que era não-consertado a prazo, aquele azulejo mal colocado justo na entrada do apartamento e que, desde o primeiro dia que eu tropecei, você disse que estava brigando com Messias, pra que ele consertasse e até a última vez que eu passei por cima dele - não tropecei, afinal - e você nesse ponto já tinha há muito desistido de brigar com o pobre Messias e agora simplesmente ironizava toda a situação. Aquele dia maravilhoso, tempos depois que você já tinha decidido que não era Messias quem tinha culpa e sim Dona Zélia. E aí você foi com o pé enfaixado na reunião de condomínio, sentou na primeira cadeira e ficou com as pernas cruzadas, balançando o pé. Dona Zélia perguntou - Como se aquela vaca se importasse, você disse - O que foi isso minha filha e você disse que tinha sido a porra do azulejo. Lembro que você disse que ela falou alguma coisa sobre reforma do prédio, sobre empresa de prestação de serviços e daí você não lembrava o resto porque a raiva foi tanta que você esqueceu a história do pé e saiu bufando da sala. Lembro perfeitamente da gente sentados no sofá, tomando conhaque, eu com a mão no seu pé enfaixado e estávamos considerando a possibilidade de deixar assim mesmo pra que você não fosse trabalhar e foi nesse dia que você decidiu parar de se preocupar com essas coisas. Acho que você nem sabe que foi exatamente nesse dia, e provavelmente está irritada agora porque eu insisto em dizer como você se sente e você odeia que eu faça isso.
É por isso, Ana, por isso e também por várias outras coisas, óbvio, que eu decidi que não vou parar mais nunca de escrever para você. Simplesmente não vou. Me rendi a mim mesmo, me rendi à minha tristeza, à minha saudade e à minha loucura. Essa mesmo. Eu volto pra você sempre que escrevo e tanto sabíamos disso que tínhamos decidido que eu escreveria somente até certo ponto. Porque você sabia que me faria bem - até certo ponto. Mas Ana, eu quero que tudo isso se foda - até certo ponto. Vou continuar escrevendo, vou continuar enlouquecendo e vou continuar insistindo em nós - até certo ponto.










terça-feira, 1 de agosto de 2017

No desvio do nó




No peso de uma despedida rápida e conturbada, caindo entre os cabos de dados. Dois corpos separados, afastados, com a saudade fluida iniciada, começada. Contemplada bem de perto e sentida bem de longe. Saudade real, esfomeada, ávida. A feiúra de tanta sinceridade, travestida no drama: não há risco detrás da linha de segurança. A completa noção de cada dia que falta, de cada hora não vivida: Hoje acabou-se o amanhã. Amanhã não vai chegar. O tempo andou demais. Tanto que não devia ser dito, tanto que não foi dito, tanto por ouvir. Tanto por deixar morrer. Venha-se o tempo, venha-se a porra do porvir e adeus a tudo que houve aqui, logo aqui atrás. Precisar estar assim, pra nunca mais viver de novo o que sempre foi vivido e assim quem sabe despencar do vôo numa queda triste e solitária, somente um sentir bilateral e longínquo: lá onde não já há mais aqui.

domingo, 30 de julho de 2017

Marina V

a praia é o limiar, Marina
trampolim para a imensidão de nada
estar cercado de nada por todos os lados
o firmamento é um nada
a falta de horizontes é um nada
ser nada
sentir nada
ter nada
a terra, o chão não são
nada

tem muito de muita coisa aqui
tem sempre um tanto de um monte
a praia é areia molhada
é onde o mar vem e vai
o limite
a fronteira
o quase-lá





Sentado de frente para o mar, é como um abismo. O mar é um precipício, Marina. Uma queda eterna, um nunca-estar. Um sempre-ir. À minha frente, a queda; às minhas costas, o fim. 

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Live and let it be

eu bêbado, o mar me abraça
vivo confundindo amor e mar
concha, areia, lençol, espuma
barco, bar, vela, travesseiro,
varanda, passadiço, quilha, costado
cerveja e chão

um cangote candango
um par de coxas raiadas
um gato desconstruído
a porta aberta
a mesa testemunha
um cigarro - vários cigarros - não reclamados
aquela luz solitária acesa
um sofá confortável, apesar da certeza de que deveria ser maior
a louça, a pia, o fogão, a geladeira
e o
café

uma certeza:
essa coisa de sempre ir, sempre ir

nada me cabe
o álcool me alucina:
minha vida foi um peito aberto
balouçante, reboteante
um livro de visitas
cuja única assinatura - a minha - 
pairava solitária sobre o esboço de um coração nem terminado, desenhado por uma muchacha de uma cidade centenas de quilômetros longe de qualquer linha de costa

ainda bêbado, o mar me regurgita
e eu volto à terra
piso, trôpego, num chão antes firme
nada sinto firme
nada é firme

e sentir é doer
eu hoje confundo mar e dor

antes: vir
hoje: ir
agora: foda-se


Os bilhetes para Maurício 4/622

Tu tem que escolher, rapaz. É vida pra lá ou vida pra cá. Os dois não dá não.

sábado, 22 de julho de 2017

Primeiro de Julho

Eu sei e não tem quem me tire essa certeza: me fodi. Você vai vir derrubando todas as barreiras que eu tanto lutei pra levantar. Tudo quanto é muro, ponte, armadilha, poço e fortaleza que eu tão incansavelmente construí ao redor, em cima e dentro do meu coração. Você vai atravessar tudo isso como se nem existisse; como se tudo o que você visse fosse simplesmente uma cabana no meio de uma clareira e não um castelo com dez anos de segredos, ideias, convicções e evasivas plenas. Você não vê nada disso: você vê, com essa sua simplicidade filha da puta e essa certeza no querer, apenas um casebre caindo aos pedaços, triste como um domingo nublado. Um casebre mal feito, minúsculo, abandonado no meio do mato. Não um casebre bucólico com um riachinho, um cajueiro e um flamboyant fazendo a sombra na rede. Não. Eu sou uma torre de pedra, monumental e inatingível e você me vê barraco, precisando de uma ou duas demãos de tinta, uma varrida e um pote de flores na janela. E você se aproxima como quem não quer nada, na inocência tão madura que você vem trazendo. Como se você estivesse somente vindo pedir um copo de água. Você vai me pedir um copo de água e eu vou querer lhe dar a chave do meu castelo, da minha torre inalcançável. Nunca antes alguém teve esse chave, sabe por quê? Porque não tinha nem porta. Talvez tenha havido, um dia. Já não me lembro. Eu vejo vir, vindo no vento, o cheiro da nova estação. Mas a merda é que eu não queria que você soubesse disso. Não queria estar nessa posição. Nunca estive. Eu quem abro as portas, eu quem detenho as chaves. Eu entro nas casas e saio quando quero. E sabe por que não quero deixar você entrar? Porque você vai fazer, comigo, a mesma coisa que eu fiz, com outras. Eu sei como é fazer o que você é. Sei como fazer quem você é. Já estive aí, ja fui isso, já fiz assim. Você vai entrar, deitar na cama, tirar um cochilo e, no fim da tarde, vai pedir licença e sair, tão linda quanto entrou.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Conversando com Paulo Coelho

- Morro de saudades.
- De quê?
- De não estar apaixonado. Saudades de pensar racionalmente.
- Se apaixonar é bom. Se desapaixonar é melhor.



- Mas você desapaixona rápido, você sabe.
- Eu? Eu não desapaixonei quase nunca. Só quando fizeram merda comigo.
- Você se apaixonou por outras.
- Talvez... mas olhando para trás, com os olhos que eu tenho agora, eu percebo que não estava realmente apaixonado. Não estava disposto a me modificar por causa delas, nem a alterar (ou construir) planos, nem a sair muito da minha rotina por causa delas.



- E com ela? Vai rolar?
- Rolar o quê? Tá rolando.
- Tá? Compromisso?
- Como assim? Quando é que uma relação é um compromisso?
- Ué, do jeito que você achar que seja uma relação. Quando você deixa de fazer só por si e faz pelo outro também. Quando a pessoa se compromete.
- Mas é isso que eu estou perguntando: No que consiste 'se comprometer'. Qual o nível de esforço e altruísmo necessários para que a relação seja qualificada como 'compromisso'? Porque eu posso ter tido isso com alguém e não ter sabido. Ou pior, ter feito alguém se sentir assim comigo e não perceber.
- Não existe manual nem marca específica de comprometimento. Você apenas sabe.
- Mas isso não tem o menor sentido. Isso é crença, não relacionamento. Veja que não estou perguntando sobre sentimento. Eu admito que sentimento seja algo totalmente subjetivo. Mas estou perguntando de compromisso.
- Compromisso também é subjetivo. Raciocina um pouco.
- É esse o problema. Eu odeio estar apaixonado precisamente porque não dá pra raciocinar direito. Por isso pulei fora dos meus relacionamentos. Porque notei que estava ficando desorientado



- Minha crise é essa. Agora mesmo eu tenho notado essa desorientação. Estou percebendo que minha intuição tem falhado, e minha intuição funciona muitíssimo bem. Eu não quero pular fora. Pelo contrário, eu quero enfrentar essa desorientação e ir além.
- Geralmente quando um relacionamento começa ele costuma vir com atestado de compromisso em três vias, lavrado em cartório com duas testemunhas.
- Eu entendi a ironia, mas preciso que você me escute sem esses julgamentos. Você já me conhece, mas eu preciso que você me ouça como se não me conhecesse.
- Ok.
- Ótimo



- Eu entendo que não existem garantias, mas meu problema ronda aí: Eu disse que confio na minha intuição, no meu julgamento e, estando apaixonado, eu sinto que eles estão descalibrados. Melhor, me corrijo: descalibrados não, mas eles são afetados pela racionalidade do meu cérebro. Me explico: é como se minha intuição fosse uma bússola e meu cérebro fosse um ímã próximo, influenciando a agulha. Então pergunto: como vou me jogar numa relação, baseado no meu instinto, no que eu sinto, se eu acho que ele está sendo influenciado? Essa influência do meu cérebro é real? Ele está tentando me sabotar? Tentando me fazer enxergar os perigos de se viver somente pela bússola? Mas a bússola  tem funcionado perfeitamente todos esses anos. É como se o ímã, quando estou apaixonado, exercesse uma força muito maior do que antes. 



- Acho que temos um paradoxo, então. Se você me diz que estar apaixonado lhe tira essa intuição, e você não quer se relacionar porque você não está com a intuição em perfeito estado, então você só pode se relacionar com alguém pela qual você não esteja apaixonado.
- Mas é isso. Quando eu percebo essa influência, essa desorientação, eu pulo fora. E eu quero enfrentar essa desorientação, ou seja, eu quero confiar mais na minha intuição e me jogar.
- Então... se a sua intuição está afetada, confie no seu sentimento. Se você está sentindo vontade de começar alguma coisa, de fortalecer uma relação, um laço, então faça. Eu não sei porque você complica tanto isso, como se devêssemos ter um certificado da intuição. É só sentir, só viver. Se não der certo, pronto, vai acabar. Cada um pro seu lado, como acontece com todo mundo.
- Quer dizer que é unilateral assim? ''Estou apaixonado, foda-se'' e esperar pelo melhor? Que a outra pessoa também se sinta assim? Quero dizer... você demonstra como se sente e espera que a outra pessoa corresponda? Porque confesso, até hoje nunca me preocupei com isso. Comigo sempre foi 'Eu quero ficar com você, se você não quer, pra mim tanto faz''.
- Um compromisso surge disso, do diálogo. Os acertos, a postura de cada um, os detalhes do cotidiano. Carinho, altruísmo, convivência. Deixar um pouco de lado o que você quer para atender a necessidade do outro; isso é compromisso. É uma descoberta que acontece aos poucos. Se você diz para outra pessoa o que sente e aquilo é mútuo, isso vai acontecendo naturalmente. Não precisa necessariamente de um contrato ou de uma lista de exigências. Obviamente, cada um tem seu próprio tipo de relacionamento, mas a base de um compromisso é sempre o carinho, o altruísmo e o desejo de ver o outro bem.
- Mas isso me preocupa: mutualidade, reciprocidade. Como eu sei que aquilo que eu estou vendo, partindo da outra pessoa em direção a mim, é real? Como eu sei que não é uma ilusão?
- Perguntando o que a outra pessoa sente, oras.
- Todo mundo mente.
- Aí está o abismo.



''É onde você se joga.''



''Sem garantias.''



- É sério isso? Parece algo que você diria para os seus filhos sobre como os bebês nascem. Não tem lógica.
- Você tem medo. Muito medo. E você culpa a racionalidade. Ou chama os outros de irracionais.
- Eu chamo de sentido de autopreservação.



- Me acompanhe na minha analogia: Alguém diz, em frente a um penhasco, ''Pule, cara''. Você está tentando me dizer que se ele não pular, ele é covarde?
- Tem paraquedas.
- Que paraquedas? Quem me deu paraquedas? Ninguém me deu paraquedas nenhum. Só estão dizendo que eu deveria pular e foda-se. Pelo menos foi o que eu aprendi do mundo até agora.
- O paraquedas é a reciprocidade.
- Então vamos melhorar a analogia:


Alguém vem e me dá um paraquedas. Me garante que ele vai abrir e que eu vou aterrisar em segurança. Depois me olha e diz: Agora pode pular.


- É a única maneira de pular, na minha cabeça. Isso sim tem lógica.
- Então não pule. Não ame. Passe a vida sem saber o que é compartilhar. Sem aprender a aceitar a outra pessoa e lidar com os problemas. Sem saber o que é deixar um pouco de si para o outro, simplesmente porque não tem garantias.
- Se eu usar o que você está dizendo para construir outra analogia, ficaria da seguinte forma.


''Pule sem paraquedas mesmo, você não vai virar pizza lá embaixo.''
''Como não?''
''Acredite, não vai.''
''Por que não?''
''Não tem como saber. Você tem que acreditar que não vai virar pizza lá embaixo e arriscar''.


- Mas ninguém disse que você não vai bater no chão.
- Ok, então ficaria assim:


''Vai. Pula sem paraquedas.''
''Mas se eu pular sem paraquedas eu me espatifo lá embaixo.''
''Ou não.''
''Como assim?''
''É isso mesmo... por algum motivo que ninguém consegue explicar, há a possibilidade de você aterrissar inteiro.''



- A questão não é a aterrisagem. É o salto. A experiência do saltar. O que você vai ver lá de cima. A sensação. Se vai se espatifar ou descer de paraquedas, isso não se sabe.
- Peraí. Você está me dizendo então que é como um Salto de Schrodinger: Pule. Você não tem 100% de garantias de que vai bater no chão, nem 100% de garantias de que não vai. Eu estou tentando achar uma analogia que explique isso. Porque, nesse cenário do salto, a gravidade não é a única lei que influencia. Porque não é um cenário real e, por isso, as leis da física não se aplicam. Afinal, se eu subir na Pedra da Gávea e pular de lá sem paraquedas, eu me arrebento no chão.
- Amar é um pulo no abismo. Isso é só medo. Porque amar machuca, doí. A gente cria expectativa e isso é normal, como tudo. Você quer analogias porque quer complicar. Você quer complicar algo que não é complicado, é simples. Você pode se machucar e você vai, algumas vezes. Mas pode ser também um simples espinho numa jornada de flores muito maior. Algumas pessoas infelizmente encontram somente espinhos. Quando você perceber que não está funcionando, acaba. Pronto. É uma experiência.



- Certo. Valeu, falou. Forte abraço.





terça-feira, 11 de julho de 2017

Man overboard




Esta é a cena: Um homem de costas, em pé na areia da praia, olha para o mar. Você está a uma boa distância, o homem não lhe vê. À verdade, ele não pode lhe ver mesmo que se vire. Ele está com as mãos cruzadas atrás. O vento suave, mas insistente, levanta-lhe um pouco os cabelos, tremula as mangas soltas da camisa cinza. É o início da manhã, mas poderia ser o fim da tarde. Alguns pássaros sobrevoam o homem e o mar. As ondas, espumas calmas de contornos imemoriais. O céu sem nuvens anuncia uma manhã fresca - ou uma noite singela. Não há mais ninguém nesta praia, o homem está só. O homem não se move. Sua cabeça está inclinada milimetricamente, para trás. Você gostaria de saber o que o homen pensa. Ele pensa no mar. Observa o ir e vir das minúsculas ondas. Ele pensa que gostaria de caminhar até elas, sobre elas, e sumir no horizonte. Não para descobrir o que há além, mas para desaparecer junto com ele. Agora o homem se moveu. Inclinou ligeiramente a cabeça para a direita. Você gostaria de saber por quê. Terá concluído um pensamento? Sim. O homem concluiu que não, o horizonte não é a resposta. Não há resposta. Ele concluiu que esta é a vida, e tudo que nela há, com as agruras pertinentes. O homem sabe disso. Mas ele, o mar, lhe traz a sensação que precisa, a paz de espírito necessária para enfrentar a obrigação diária em estar vivo. Sempre foi ele, o mar, quem lhe trouxe esta paz.

Marina IV

Tente me dizer, Marina, o que eu não consigo escutar: Vai. Vou. Vou? Ai, Marina... sim, eu vou. Onde há costa, linha de mar; minúsculas conchas leitosas e toda a abundância de adeus. Tem muito adeus em mim, Marina, e eu não sei o que fazer com tanta saudade. Ela nunca fica, sabe, a saudade... Ela nunca fica na areia. Parece que a cada novo dia uma saudade nova se aconchega em mim. É certo, Marina, é certo que essas saudades são o eco de uma vida já vivida, eu sei. Mas, Marina, viver é sentir falta. Sou um náufrago nesse mar de adeuses. Naufraguei amiúde nas minhas ausências. Retorno sempre à linha de areia. Recolho um punhado de vida, guardo no bolso... e essa areia repleta de mim não sabe onde ser. Não se pode ser areia no mar, Marina, ou pode? Areia no mar é ilha? Sou um punhado de areia no meio desse mar de saudade, rodeado pela ausência. Estou cansado, Marina, muito cansado. Sou areia, sou mar; sou adeus, ausência e saudade.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

As partes de Donatella

Vem, e se aconchega em mim. Se aninha na dobra da minha costela, olha pra mim com os olhos úmidos, sonolentos, resmunga algo ininteligível e volta a dormir. Seus olhos verdes me dizem: Não me machuque, eu sou muito frágil. E é. Move-se feito criança, curiosa e interessada. Tem uma beleza felina e, ao mesmo tempo inocente. Um começo de vida frágil, mas será grande, forte e independente.  Está aprendendo com a melhor.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

No caminho do laço



Na leveza de um abraço demorado e natural, flutuando sobre a cidade. Dois corpos embolados, entrelaçados, com a violenta fluidez de uma saudade ainda nem nascida, mas já saciada. Já contemplada de longe e sentida de perto. Saudade já criada, já alimentada; empazinada. A beleza da sinceridade despudorada: o risco que se corre. A noção do tempo, ou ainda, a falta de noção do tempo: Hoje foi ontem e amanhã não se fez, mas já foi. O tempo não anda. Tanto que se pode ser dito, tanto que já foi dito, tanto por dizer. Tanto por fazer e viver. Foda-se o tempo, foda-se o porvir e foda-se muito mais o que houve lá pra trás. Querer estar assim, pra viver de novo o que nunca se conseguiu e assim quem sabe sobrevoar a cidade num abraço etéreo sem amarras nem correias, somente um sentir bilateral e contíguo; de lá pra ali e dali pra cá.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Marina III

''Mas a brisa, por ser carinhosa, é quem mais tem castigado.''


Um fiapo de trapo amarrado na velha estaca
fincada na praia
Minúsculos restos de tinta descascada
voando sem dó
Redes, bóias, restos de iscas e linhas
dependuradas ali
São os restos esquecidos das tantas
saudades que o mar viu nascer

Sonho que vou a caminho do mar. A pé e de coração leve, como disse Whitman. Sinto meus pés deslizarem suavemente sobre a planície. Não piso; quase flutuo. Os dedos, pequenos, sentem os grãos por entre; os dedos entram na areia fina do mar. É areia minha, Marina, areia daqui. A cada flexão de músculo, meus dedos afundam, entram mais e mais. Já não flutuo. Sinto, com cada centímetro de pele, que meus pés abraçam a praia. Paro. Parte de mim olha para o farol da Pedra Seca, à frente; a outra parte, essa que é vista agora, olha para dentro, Marina. Não há farol. Não há barco. Não há um porto; destino. Meu corpo, Marina, é um cais de emoções. Minha alma, antes marina, é um leito seco. Não há mar; é meu destino.

domingo, 11 de junho de 2017

Marina II

O mar me levou aos poucos.
Primeiro foram os dedos, pés;
depois as mãos.
O mar levou meu corpo.
O mar me levou aos poucos, Marina.
Certo de tudo,
O mar nunca erra, não importa quantas vezes eu não tente.


Sentado à beira do mar, minhas mãos tocam a areia molhada; as duas mãos. Minha cabeça largada para trás, o pouco de sol ainda clareia minhas pálpebras fechadas. É o crepúsculo, o arrebol; Há um vento insistente, uma brisa. O sabor de mar, de vida. O gosto salgado, Marina, tantas e tantas vezes já sentido. É casa, é o retorno da bênção. A cada toque de onda nos meus pés, o mar me leva novamente. Dessa vez, menos e menos, mas paulatinamente eu vou; eu sou ido, sou levado. Trago a cabeça para a frente e abros os olhos. O mesmo céu de tanto sempre. As tintas da saudade, espalhadas despretensiosamente em tudo. A paleta de cores, Marina, me diz: É o fim.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

As cartas para Nora

por James Joyce, para sua flor azul escura molhada de chuva.



"Me pergunto se não estou um pouco louco. Ou o amor é loucura? Em certos momentos te vejo como uma virgem ou madona, em outros te vejo desavergonhada, insolente, seminua e obscena!"




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