domingo, 11 de junho de 2017

Marina II

O mar me levou aos poucos.
Primeiro foram os dedos, pés;
depois as mãos.
O mar levou meu corpo.
O mar me levou aos poucos, Marina.
Certo de tudo,
O mar nunca erra, não importa quantas vezes eu não tente.


Sentado à beira do mar, minhas mãos tocam a areia molhada; as duas mãos. Minha cabeça largada para trás, o pouco de sol ainda clareia minhas pálpebras fechadas. É o crepúsculo, o arrebol; Há um vento insistente, uma brisa. O sabor de mar, de vida. O gosto salgado, Marina, tantas e tantas vezes já sentido. É casa, é o retorno da bênção. A cada toque de onda nos meus pés, o mar me leva novamente. Dessa vez, menos e menos, mas paulatinamente eu vou; eu sou ido, sou levado. Trago a cabeça para a frente e abros os olhos. O mesmo céu de tanto sempre. As tintas da saudade, espalhadas despretensiosamente em tudo. A paleta de cores, Marina, me diz: É o fim.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

As cartas para Nora

por James Joyce, para sua flor azul escura molhada de chuva.



"Me pergunto se não estou um pouco louco. Ou o amor é loucura? Em certos momentos te vejo como uma virgem ou madona, em outros te vejo desavergonhada, insolente, seminua e obscena!"




E mais:



quarta-feira, 24 de maio de 2017

Os bilhetes para Maurício 3/622

é que ela é tão solitária quanto você, maurício. por isso you get along.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Las cartas para Mauricio

El miedo que tengo en escribir a vos es también mi deseo. Las ganas del sí e el temor del no. Hay muchas variables flotando en esa danza semiótica. Hay vos, hay yo, está él, está ella. Hay otras variables más subjetivas aún. Yo no sé donde ubicar los nombres para meter en esta carta. A nuestro favor, el tiempo, por más increíble que nos parezca. El tiempo pasado, digo. Estoy hablando del tiempo que ya pasó, pero que está presente, vós sabeis. Todo lo que pasó - o no -, de alguna manera se quedó y fue responsable por lo que está pasando ahora. A vos, confieso que ando un poco sorpreso en los últimos días, por la manera que la cosa se fue cosificando, se intensificando... se intensicosificando. Es una mezcla de no sé qué con no tengo la puta idea.
Vos haces parte de mi imaginário cotidiano reciente mucho más de lo que he dudado. Si. No tengo una justificación exacta para essa afirmación, es solo una... afirmación. Quizá yo quisiera que fuera diferente, pero no sé hasta donde me atrevo construir, mentalmente, un plan concreto a respeto. Tal vez a mi me guste solamente el imaginario. La realidad puede que sea aún más bruta, vós sabéis.
Pero también confieso que me gustaría verte en otra realidad. No sé cual, exactamente, pero sé que esa no funciona más para vos. No está funcionando. Confieso - una vez más - que bien dentro de mi deseo en hacer algo juntos hay, embarcado, el deseo de verte un poquito más feliz. Yo sé que tienes el potencial - siempre lo supe - y sé de todo que puedes alcanzar. Tengo miedo que esas nubes cargadas no sé de que no te abandonen pronto. Pero quizá sea esa misma nube la influencia que te acerca un poco más de mi. Quizás por eso esteamos más cercanos en los últimos días. Hay males que vienen por los mares, decía mi abuelo.
Yo no quería experimentarte, hacer un test-drive. Quería bucear directamente, sabes? Sumergir profundamente, tirar todo al carajo y sentir el frío porteño, prender un pucho y tomar una quilmes mientras siento tu boca entre mis piernas.
O tal vez olvidarnos de lo que pasó en la última década y fingir una nueva, o un simulacro, que sé yo. Es lo que te digo: huir de aquí y ver lo que hay mas allás de esas ventanas sin vida. Sí, yo sé que la vida no funciona de esa manera, por supuesto, pero no es posible que no sea posible tampoco.


Elizabeth

sexta-feira, 5 de maio de 2017

As partes de Virgínia

O pior de quando eu me separei de Virgínia não foram os telefonemas às duas da manhã, enquanto eu tentava terminar o capítulo desta história; nem as batidas na minha porta aos domingos ou as insistentes mensagens na minha caixa de e-mail. Virgínia, antes de se separar de mim, era exatamente assim. Não adquiriu nova personalidade, apenas intensificou alguns aspectos que, para mim, eram detestáveis.
Depois que nos separamos, ficou claro para nós dois que era a coisa certa a se fazer. E essa clarividência que nos atacou tão de repente foi o golpe mais baixo que poderia vir; o que eu não esperava. Ela precisava me atormentar, e eu precisava ser atormentado. Ambos não sabíamos disso naquele momento, enquanto trepávamos loucamente no banheiro da concessionária ou no quarto de limpeza do hospital.
Mas, à noite, quando virávamos cada um para o seu lado da cama - ela olhando a parede, eu olhando a janela -, pensávamos em como seria se estivéssemos em outro lado da cama, ou ainda, em outra cama. 'E se...' foi o nosso segredo durante anos.
Acordávamos certos dias em silêncio. Eu me detia na cama fingindo dormir, enquanto ela escovava os dentes e mijava, e assim não teríamos que nos olhar através do espelho. Ou eu corria direto para a cozinha e preparava o café e os ovos, e não teríamos que sentar na frente um do outro na mesa. Ela também tinha os seus subterfúgios e eu os notava mais sutilmente, fosse no gozo fingido para apressar o fim do sexo, fosse no plantão de mentira nos finais de semana, para não me ver gritando com a televisão.
Entretanto, nosso relacionamento terminou. E a pior coisa disso foi perceber que, agora, eu não sabia o que fazer com a minha liberdade. Não sei mais quem sou e o que quero. Talvez quisesse ser promovido a gerente regional, mas não quero me esforçar para isso. Talvez quisesse viajar para a Europa, mas não quero gastar dinheiro. Talvez vá passar o carnaval em Salvador, mas não tenho paciência para multidões.
"Devíamos ter tido um filho", penso enquanto compro o jornal de manhã a caminho da concessionária.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Os votos

Dele:


''Eu prometo que, tendo minha mão na sua, meu olhar no seu, eu nunca, jamais em qualquer hipótese vou fazer algo que possa te machucar
De agora em diante, vou usar todas as forças que tiver e não tiver pra que você seja a mulher mais feliz do mundo
Eu não vou pôr um anel no seu dedo como símbolo de propriedade, mas sim como símbolo de união eterna
Eu não vou dizer que só a morte vai nos separar simplesmente por dizer: eu sinto isso dentro de mim, nesse momento e senti quando você disse que sim, que casaria comigo
Eu prometo que vou fazer o possível e inimaginável pra me sentir como me sinto agora: amado e apaixonado
Eu vou confortar, abraçar, afagar e respeitar você como o ser humano maravilhoso que você é
Eu vou aprender sempre, reaprender mais ainda e continuar aprendendo com você
Eu vou ser luz quando você precisar e não vou me importar de parar tudo o que eu estiver fazendo quando você pedir minha ajuda
Eu prometo que cada dia eu vou tentar ser melhor
Eu prometo que sempre que parecer que eu estiver esquecendo tudo o que eu prometi, quando eu estiver numa caverna escura, eu vou olhar pra você, pra bem dentro dos seus olhos, porque eu sei que lá eu vou encontrar a saída
Eu vou seguir ao seu lado nessa caminhada rumo ao infinito, porque você é a mulher da minha vida e da minha morte e eu sempre soube disso, apesar das nossas tantas brigas e discussões
Quando você estiver doente, eu estarei lá
E se eu estiver doente também, eu vou juntar todas as minhas forças pra cuidar mais de você do que de mim
Essa estrada é longa, é complicada, é cheia de buracos e nós dois sabemos disso; mas também sabemos que a única maneira de seguir por ela é respeitando um ao outro, como aprendemos
Você não vai ver, mas eu vou velar seu sono, como já fiz tantas vezes sem você perceber
Eu vou me cuidar, vou tentar sempre ser o homem que você vê agora
Eu vou te dar nossos filhos, eu vou ensiná-los o que nós estamos praticando: o amor, puro e incondicional
Nós vamos vê-los crescer, juntos, abraçados, sendo um exemplo de pai e de mãe
Você, eu não tenho dúvidas, vai ser uma  mãe fantástica, segura, sensata e carinhosa
Porque você é assim
Eu confio plentamente em você, sem restrições
Eu vou confiar a você nossos filhos e confiaria a minha vida, se e quando precisar
Eu quero que você também tenha essa certeza, por isso aqui, diante de todos, diante de Deus, diante dos deuses, das deusas, diante do universo que se estende no peito daquele homem pendurado na cruz, eu digo: pra sempre vou te amar.''




















































Meu:

A culpa não foi minha, eu votei na Dilma. Hasta la victoria, siempre. 

quarta-feira, 15 de março de 2017

It's all about your cintura

minha mao indo e vindo meus dedos mexendo subindo e descendo como se eu tivesse tocando piano eu nem sei tocar piano direito mas era assim indo e vindo subindo e descendo as vezes apertando arrochando forte as vezes deslizando devagar suavemente quase sem tocar tentando passar a ponta do dedo so nos micropelinhos que populam essa construcao maravilhosa que e a tua cintura nao so a cintura beleza mas toda aquela regiao cintura quadril ossinho do quadril iliaco o nome umbigo que porra e essa tem uma harmonia fisica uma negocio meio quantico ali sei nao tem alguma coisa que me faz nao conseguir sair daquela area alguma coisa que faz com que meu queixo volte sempre e pouse ali descanse ali fique ali sem fazer nada so ficando absorvendo num transe quase metafisico uma especie de osmose mistica sei la que porra eu tou dizendo nao faco a menor ideia eu so queria isso meu queixo labios boca rosto inteiro colado a pele da cintura dela nao so cintura mas barriga tambem enfim essa area todinha ali ai caralho eu poucas vezes na vida afirmo alguma coisa com toda a certeza do mundo mas eu arrisco minha integridade moral pra afirmar com toda a certeza do mundo que eu nunca vi cintura barriga enfim essa area todinha ali mais bonita do que essa eu sou sincero tu sabe ne e estou dizendo a tua cintura barriga enfim essa area todinha ai me deixa num torpor numa embriaguez tu visse isso ao vivo ne entao e isso eu quero me embriagar da tua cintura barriga enfim essa area todinha ali

Os bilhetes para Maurício 2/622

vejo vir, vindo no vento, o cheiro de nova estação. tu vê também, maurício?

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Os bilhetes para Maurício 1/622

você precisa escrever para ela

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

As cartas para Ana 16/17

Obrigado, Ana. Foi um negócio doido, plural de tudo: eu senti, tu sentiu, a gente se sentiu e se lascou; ou eu me lasquei. Não, mentira. Tu lesse isso agora e já começasse a inventar, a elaborar uma resposta: tá, tu se lascou também. Aí tu agora fez Rum, como quem diz Muito bem. É, eu sei, Ana, é claro que eu sei. Tu sabe que eu poderia escrever isso aqui tudo com cada reaçãozinha tua, cada mínimo detalhe do teu rosto lendo cada palavra; cada detalhe do teu lábio pronunciando cada fonema. É claro que eu sei. Mas não é por  aí que envereda essa lamúria, tu bem sabe.
Ana, obrigado, é sério. Agora tu disse Ai para, já vai começar a choradeira, larga disso, mas não, Ana, não é isso. É sério: obrigado. Eu já não sou aquele cara - garoto, como você me chama. Eu cresci para caralho com você - risadas à parte Ah vá, garoto - e por causa de você. Se não fosse você eu ainda estaria me lascando todinho achando poesia  em cada latido del corazón; escrevendo desesperadamente cada merda que vinha na minha cabeça ou, como você me chamou aquela vez, o poeta da arritmia.
Obrigado, Ana. Agora eu sei que as coisas vão e vem - geralmente vão. E que é possível viver sem elas. Viu como eu sei como você reage? Até seu pensamento eu leio. Ô Ana, eu sei que você está pensando nele. Como não estaria? Você nunca mais foi a mesma depois daquele dia, e disso eu também sei. Agora você está calada, com aquele embrião de raiva, já começando a crescer, do mesmo jeito que cresce sempre que eu falo nele. Agora o embrião virou um feto e eu vou dizer tudo bem, eu vou parar, mas me deixe dizer que eu também sei que sua raiva, a sua angústia, o seu ciúme é porque ele é seu; ele sempre foi seu, de mais ninguém, ninguém tinha nem tem o direito e nunca vai ter o direito de ter ele também, porque repito, ele era seu. Ana, meu bem, eu sei disso, eu sempre soube, eu nunca duvidei. Ele se foi cedo, foi uma merda mas Ana, olha: a gente sobrevive. Você sobreviv mentira, você viveu, você vive. Você é do caralho e agora você está puta comigo por estar te elogiando - nossa, como você não suporta elogios.
Ana, parei. Mas obrigado. Como é possível que eu tenha aprendido tanto com você? Você tem o senso de organização de uma ameba - agora você deu aquela gargalhada gostosa, aguda. Você não consegue focar em uma coisa somente, você quer ser carlos drummond de andrade e nadezdha krupskaya; às vezes você quer ser madre teresa de calcutá e noutras rita lee. Acho que por causa disso é que eu aprendi. Porque agora, olhando pra trás, você realmente conseguia ser simone de beauvoir e cortázar. Só agora eu sei do meu orgulho, Ana, só agora. Será que isso influenciou você ir embora? Eu não chegar onde você estava? Agora você me olha quase com pena dizendo Não, não tem nada a ver uma coisa com a outra. Eu sei, Ana, só estou ficando um pouco melancólico - tom e jack, a mistura perfeita, blues e bourbon. 
Obrigado, como eu disse. Obrigado, Ana, acabou enfim. Eu sinto que todo este processo foi uma porra de uma, como se diz, aquela palavra de filme de terror... um exorcismo. É, um puta de um exorcismo. Demorou muito, demorou bastante, demorou tudo, demorou uma caralhada de tempo, mas eu enfim posso dizer que cheguei em zihuatanejo - e lá vem você franzindo a testa já falando Que merda é zihuatanejo e lá vai eu lembrar o que é - e estou, posso dizer com clareza, estou tranquilo. Como andy dufresne, rastejei por quinhentas jardas pela  mais pura bosta que havia nos estados unidos, e saí limpo do outro lado, tá, tá, foi um exagero poético, não precisa rir assim. Como foi que você falou?  A mais pura bosta, garoto? se não fosse por mim você ainda estaria se lamentando por aquelazinha outra lá, tudo bem Ana, tudo bem, esta é uma droga de uma carta de despedida, certo? Pare, me deixe terminar. 
Minha lembrança atual de você, Ana, é calma. Serena, seria a palavra. Eu já não passo por todo aquele processo de sofrimento pela sua ausência, seu não-estar. Eu aceitei, me adaptei. Você não estar aqui é natural, agora eu sei disso. E arrisco dizer que estou, inclusive, pronto; outro corpo, outra cabeça, outra estar. Você passou, ainda bem. Deixou aqui uma miríade incrível de ferramentas para lidar com a sua ausência: já as utilizei e não preciso mais.
Obrigado, novamente. Você foi a melhor experiência pela qual eu já passei. Todas as merdas que a gente passou juntos, todos os banhos de chuva, todas as cervejas, todos os bolinhos de bacalhau, todas as mesas de sinuca, todas as poltronas mofadas dos ônibus, vans e kombis, todos os quartos de hotel, todos os becos, todos os vômitos às cinco da manhã, todas aquelas horas de fazer nada, simplesmente assistindo o seu cabelo crescer, todo aquele gozo interminável, todas as roupas lavadas, cafés tomados, pizzas cuspidas e esfihas despedaçadas no colo, todas as faxinas esquizofrênicas, o sofá fica aqui, meu feng shui diz que o sofá fica acolá, você diz que a luz de tarde esquenta ali, eu quero o sofá encostado na parede, todas as caipirinhas, todos os banheiros entupidos credo o que você comeu hoje, foi aquela merda de kebab dos infernos, todos os filmes, quantos filmes, puta que pariu foi filme pra caralho, todos os livros, cacete, foi livro pra caralho, a gente tem referencias pra três vidas, todos os roteiros que a gente criou, as ideias que teve, os projetos que nunca saíram do papel, todos os golfinhos que quase arrancaram meu nariz, todas as topadas e todas as unhas encravadas, além de todas as massagens, e diferentes loções até chegar naquela que não tinha cheiro, que era a primeira, afinal de contas, e todas as camisas manchadas de catchup porque eu simplesmente não consigo não me sujar e todas as vezes que você me viu escorregar no chão molhado e cair na gargalhada porque você simplesmente não consegue não gargalhar quando vê alguém se fodendo, todas as gargalhadas, todos os sorrisos, todos os porquês perguntados e todos os porquês respondidos com apenas alguns poucos porquês que ficaram pelo caminho - perguntados e respondidos - e todas as vezes que eu tive certeza de estar passando pela experiência mais assustadora da minha vida, você, Ana.
Agora eu vi que você, finalmente, sorriu e quase chorou. Eu sei, Ana. Não precisa disfarçar. Depois de tanto tempo, você ainda disfarça.
Enfim, obrigado. Eu não estaria onde estou se você não tivesse estado onde esteve: aqui. Eu definitivamente estaria escrevendo em um blog na internet e não este livro.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Conversando com Sophia


Há mulheres que são maré em noites de tardes...
e calma
Sophia de Mello Breyner Andresen






Minha amiga, há, viu. Há mulheres que são marolas nas tardes quentes de Tambáu. Há mulheres que são a espuma de cada onda cantante, indo e vindo desde sempre, pra todo canto, em que se sente, bem insistente, um calor profundo, quieto, manso e delicado; o calor sem ardor, só um leve queimar de fogo baixo, lento. Há mulheres que trazem nesse olhar uma leveza de brisa morna, de brisa certa; há mulheres, Sophia, tu bem dissesse, há mulheres que trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos, num foi? Pois então, é verdade, eu confirmo e reconfirmo pra tu, Sophia: Há mulheres que vem deslizando em poesia, num flutuar de jangada velha, acostumada com os desvios das marés; há jangadas e mulheres, Sophia, que sabem-sentem cada maltratar de vento, por mais ínfimo que seja; jangadas e mulheres que navegam no mar da certeza, com a experiência milenar que, meu senhor jesus cristo, valha-me deus, parece passar de geração em geração - as mulheres pelo sangue fervente das fogueiras medievais e as jangadas pelos veios resistentes das madeiras. Há mulheres que são sol em dias gélidos nos portos tirrenos; mulheres-claras que iluminam o caminho entre a miríade abismal de rochas e sereias e entre tantos bafejos mortais das hidras de sal paraibanas.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Marina I

Nada acaba agora.
Um barco chega ao porto; ele zarpa.
Os barcos, Marina, foram feitos para ir-se.

Nada acaba agora.
O cais se apequena, se distancia.
Os barcos, Marina, estão idos.

Mas nada acaba agora.
O mar se agranda, à frente; se infinita.
Os barcos, Marina, somem no céu.

Um céu tão fácil de confundir com o próprio oceano; uma linha minguante, impossível de traçar: o horizonte inalcançável, Marina. Eu, tantas vezes ido, tantas vezes retornado…

Agora estou na praia. Não há cais, não há porto, não há barco. Há somente a areia molhada, meus pés e alguns pássaros. É tarde. Marolas espumantes minúsculas banham meus dedos, lavam meus pés. Vem e vão, levando um pedaço de mim. Pouco a pouco eu desvaneço, com cada pequena onda, com cada som de mar.


O cais, Marina, ele já não me chama.

sábado, 7 de janeiro de 2017

As cartas para Ana 15/17

É quase o fim, Ana. Estamos quase chegando àquele ponto sem retorno do adeus conformado. 
Que mentira. Fim? Pra quem? O fim já foi e já veio inúmeras vezes, eu sei. É a loucura. Dizem que um louco não pode jamais se perceber fora da realidade. Mas Ana… Eu estou ficando louco, ainda. Eu sei que vou estar. E aí, Ana, me diz, e aí, quando eu estiver, eu vou saber que estou? Não sei.
Mas é quase o fim. Uns dias - ou anos? não sei - atrás você me perguntou do que eu lembraria mais de você e sua pergunta foi tão, mas tão sincera, Ana. Você fez aquilo que eu nunca encontrei em ninguém mais, aquela coisa de ser clichê e também verdadeira, uma inocência com o mundo, mesmo você sendo a mulher viajada que se tornou. Você perguntou com aquele desinteresse genuíno, mas querendo saber a resposta. Não era um olhar blasé - você não é assim -, era um olhar em outra coisa; você já estava pensando no plano de internet mais sensato pra sua economia doméstica. Ana, era isso - é isso? - que eu adorava - adoro? - e odiava - odeio? - em você. Como alguém consegue sentar de pernas cruzadas no sofá - retirado do lixo, reformado na calçada do prédio num domingo de 35 graus na sombra - com o computador no colo e pesquisar Maconha Hidropônica Como Cuidar ao mesmo tempo que toma chá de boldo - quem toma chá de boldo? - escutando aquele disco de Odair José - Odair José, como tantos outros, e eu lembro de você me contando daquelas tardes que seu pai escutava Odair José sentado na cadeira de balanço, tomando cachaça e fazendo palavras-cruzadas e por isso você é louca por Odair José -, cantarolando Cadê você que nunca mais apareceu aqui ou tchu tchu tchurururu vamos fazer dessa noite a noite mais linda do mundo. Ai, Ana. É disso que eu vou sentir mais falta. Dessa persona tua, essa coisa, essa não-sei, essa que porra é essa, o que é essa mulher.
Eu ficava na rede enquanto você fazia suas coisas. Fazia as unhas, fazia desenho, fazia nada. A felicidade era aquilo, Ana. Você acordando, me olhando emburrada entre os cabelos assanhados das 8 da manhã perguntando Dormiu bem? e eu dizendo Ainda nem dormi e você rindo da minha cara de insone dizendo Se fodeu e eu concordando e você aí então vinha se pendurar no meu pescoço Quer café? - Quero - Então vai lá fazer  e você ria e Claro, meu bem, que eu vou fazer café pra vo
PORRA!
Era isso. É isso, Ana. Seu café. Ana, seu café, o que tinha nele? Se você estivesse lendo enquanto eu escrevo ia rir e fazer alguma piada sarcástica, provavelmente ia dizer Nada não, só umas pitadas de cocaína, ou alguma outra como Nada ué, você que nunca tomou café bom na vida e agora acha que o meu é bom. Não, Ana, eu tomei café em Amsterdam e em Cochabamba, em Córdoba e em San Francisco, em Campina Grande e em Paris. Não, Ana. Era o seu café. E também não tinha nada a ver com os anos, não foi o tempo. Eu não me acostumei com o seu café, porque desde aquela primeira noite de uma chuva torrencial em BH - Maletta e choro na esquina - que você fez café pra nós às 5 da manhã, que eu disse Melhor café que eu já tomei na vida - lembra disso, Ana? Desde a primeira xícara - copo de geléia - que eu me apaixonei pelo seu café. E sempre estava na temperatura ideal, nunca entendi isso. Eu nunca precisei esperar muito tempo pra esfriar, e também nunca reclamei que estava frio. O que tinha no seu - meu - café, Ana?
Eu hoje escuto Odair José, tomo café ruim e sinto sua falta. É o que faço, além de fumar desesperadamente enquanto o bourbon molha minha garganta e seca o meu bolso. Se você estivesse aqui iria me odiar por gastar tanto dinheiro com bebida. Ana, meu suicídio crediário é satisfatório, é sim. Vou me matando aos poucos, me dando aos poucos, me entregando aos poucos pra, quem sabe, eu tenha mais tempo. 
Ao mesmo tempo que o fim vai chegando, Ana, eu preciso parar de escrever, mas não quero. Sinto, escrevendo essas palavras, que assim eu posso permanecer aqui - lá? - com você. Preciso parar de escrever.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

As cartas para Ana 14/17

Eu não sei como dizer isso, então escrevo, Ana.
Não consigo. Simplesmente, assim, direto e sem filtros: n-ã-o-c-o-n-s-i-g-o.
Ana, eu tento, tento, tento. Apesar de não parecer, eu faço força. Eu queria ser menos natural, menos go with the flow, mas né, cada ação tem uma porra de reação.
Enfim, eu só queria dizer que eu não consigo. Que eu não presto, que eu não valho nada. Que eu não sou flor que se cheire, que eu sou alguém cuja companhia prolongada não vale a pena. Eu presto pros meus companheiros de mesa, pros donos dos bares; pro guardador de carros que pede meu cigarro. Presto pro mendigo, Ana, que me pede uma moeda e eu dou 10 reais em moeda que tinha guardados há meses porque odeio carregar moedas. Presto pro vendedor de óculos de sol de mentira, que me oferece um rayban polarizado por 50 reais e eu pechincho, ele baixa pra 40 e eu digo que não pago 40 num óculos de plástico, ele faz cara de resignação, oferece 38 e nada mais e eu digo então vou ali falar com teu vizinho de repente ele tem o óculos que eu quero e mais barato então ele segura meu braço e diz toma essa porra por 30 vá, me dê o dinheiro aí e eu sorrio e digo que 30 reais são suficientes e ainda dou meus óculos de sol antigos, levemente arranhados e escuto ele dizer que vai tentar vender porque sempre tem um bêbado pra enganar. Ana, eu presto pra essa gente. Eu presto pros cachorros na rua, no meio das mesas, se deliciando com minha massagem. Presto pro cobrador de ônibus que me reconheceu da viagem anterior, quando eu não tinha dinheiro da passagem e me deixou passar de graça. Eu sou assim. Eu ando pelas ruas de João Pessoa ou de Roma, fumo meu hollywood e sento na calçada, comendo o mesmo sanduíche de mortadela, tomando cerveja, ouvindo as conversas de um vendedor de flores de Bangladesh ou de um flanelinha de Uiraúna. Ana, não estou me rebaixando, eu já estou abaixo. Cada vez que você vem e me diz Não seja tão duro com você mesmo, eu vou e digo Eu só sei ser assim. Eu presto sabe pra quê, Ana? Pra fazer merda. Pra isso eu presto. E eu tenho o vislumbre de uma possível merda, cristalinamente viva nesse futuro próximo que envolve  a gente - eu mais você. Eu presto pra essas coisas, Ana. Pra tu eu não presto não.

Viu? Viu, Ana? Foi isso que aconteceu: fiquei louco. Enfim cheguei. Você foi embora há muito, há tanto, e eu ainda estou lá, naquele lugar onde a gente disse adeus sem dizer nada. Ana, eu dei adeus às suas costas - que costas! - e fiquei lá, parado - ainda estou - na calçada sob o flamboyant que, descobri depois, estava sangrando naquelas tardes tão azuis.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

As parte de Clara

Ela estava completamente ao meu redor; ia e vinha em diferentes e inúmeras formas: um barco, uma casa, uma folha e três shots de bourbon. A via nos copos, nas brasas do meu cigarro barato e nas ondas do mar; a via nas solas dos sapatos de salto alto rodopiando pelo salão completamente esfumaçado, giros e giros e giros, circulando pelo tablado de madeira gasto pelos tantos giros de tantos saltos - altos ou não. Ainda que Clara estivesse lá - e aqui eu evito todos os trocadilhos infames, amadores, infantis e clichês - eu nunca a via. Aqui também minto: a vi em sonhos, em imagens pensadas e em fotografias. Ainda que ela estivesse lá, eu nunca a via. Porra, quantas foram as sensações que eu senti? Que classe ou natureza de conjunções químicas compõem o resultado destas negociatas psicológicas? Quem está por trás disso? Sou eu, é ela, somos eu e ela? Somos eu? O que está acontecendo, onde estou e para onde vamos? Eu me atrevo a perguntar e me atrevo a decidir a resposta: não sei. A única e inescrupulosa arte da esperança; o não-altruísmo da sentença particular: eu, eu e eu. 

Eu lhe ofereço prêmio nenhum. Não tenho um passado glorioso nem um futuro promissor e, por deus, meu presente é um pobre gato vira-lata agonizando na sarjeta. Não sou um homem exemplar, nunca fui e a soma destes me delata o porvir: nunca serei. Fugi das minhas próprias guerras, desertei meus batalhões, traí meus companheiros e decepcionei meus capitães; tudo em vão. As guerras foram perdidas, os batalhões, estraçalhados, companheiros foram mortos e capitães enterrados em valas coletivas sem glória nem honra. Onde foi que eu errei? Provavelmente em tudo e com todos. 


Mas estará à sua frente um homem ciente do seu próprio tempo, de sua própria condição e de seu papel neste mundo. Um homem que sabe, com todas as certezas que lhe são cabíveis, que não há nada neste universo ou em qualquer outro imaginável, que a única centelha possível só existe quando todas as outras faces da solidão desaparecem, oferecendo espaço, tempo e vontade para o surgimento daquele impronunciável, impraticável mas inexorável sentimento: 

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Dois poemas diametralmente opostos ou uma fotografia tirada no momento exato em que dois estranhos se conheceram.

I

- Posso pegar no seu cabelo?

Ele achou estranho.

- Pode, mas com uma condição.

Eu achei estranho.

- Qual?
- Eu deixo você pegar no meu cabelo se você deixar eu tocar em qualquer parte do seu corpo.

Eu hesitei.

- Qualquer parte?
- Qualquer.

Eu hesitei.

- Ok. Qualquer parte então.


Percorri meus dedos pelos seus cabelos.



II


- Posso pegar no seu cabelo?
- Pode, mas com uma condição.
- Qual?
- Eu deixo você pegar no meu cabelo se você deixar eu tocar em qualquer parte do seu corpo.

Ela hesitou.

- Qualquer parte?
- Qualquer.

Ela hesitou.

- Ok. Qualquer parte então.


Pousei minha mão na nuca dela.



quarta-feira, 27 de julho de 2016

C'est fini


Ana foi provavelmente a mulher mais importante que eu conheci, e a mais interessante, sem desmerecer as outras. Mas Ana foi quem chegou mais próximo do amor. Foi com ela que eu aprendi que uma das faces do amor, parte inerente de um sentimento maior, é acreditar em outra pessoa mais do que em você mesmo. É olhar para alguém e ter certeza do poder, do talento, do carisma, da inteligência dela. Eu sentia isso, apesar de não saber o que era. Vim aprender tempos depois, após muita auto análise, muito cigarro de origem duvidosa, cerveja quente, bares decrépitos e conversas ébrias. Eu tentei corrompê-la de todas as formas possíveis e ela seguiu; firme, encantadora, educada e segura de si. Nunca eu tinha conhecido alguém assim, cuja personalidade se encaixava perfeitamente na minha, porque era eu quem tinha os buracos que precisavam ser preenchidos. Ela não. Ana era perfeita na humanidade libriana dela. Até conhecê-la, minhas certezas eram todas brutas, fundamentadas numa vida mesquinha e solitária. As mulheres da minha vida eram somente um complemento, um acessório sentimental pendurado no chaveiro que eu mantinha no lugar do coração. 

quarta-feira, 6 de julho de 2016

As partes de Hannah (Estás me ouvindo?)


a tua cintura me fazia ranger os dentes, me fazia urrar docemente. eu queria, como a porra de um leopardo, cravar minha mandíbula naquela curva, meio palmo acima do ilíaco. deixar minha marca de tesão naquela pele branca pintada com símbolos ininteligíveis. e depois, babando e lambendo minha saliva próximo ao teu umbigo, apertar tua bunda - os dois mini glúteos que tu tem, tão diminutos, perfeitamente redondos e atrevidos - com as duas mãos, arranhando forte e lentamente. minha língua desceria devagar, acompanhando o ritmo das gotas de despudor que jorravam da minha boca, pra se encontrarem com as gotas de impaciência que inundavam tua renda vermelha. eu não ia te chupar. não. eu ia te devorar, literalmente. eu ia te morder, porra. morder. eu ia arrancar pedaço por pedaço desse tecido cor de sangue que tu colocou. ia matar minha fome de tu começando pela tua calcinha. e depois, devorado cada pedaço, eu ia mergulhar na tua boceta. cair de boca, nadar nesse teu mar, teu charco, tua lagoa. puta merda, eu ia te chupar tanto, mas tanto, que tu ia implorar pra eu parar ao mesmo tempo que ia implorar pra eu continuar. eu ia te deixar tão molhada - de sexo, saliva e suor - que tu ia ficar morrendo de sede e ia pedir por favor mauricio pare, eu não aguento mais.


''Enquanto você olha para objetos e pessoas com puro desejo, 
ela olha seu olhar e se pergunta o que estamos fazendo.''

quarta-feira, 29 de junho de 2016

devagar, sem pressa, me ouve

 


eu não sei o que me fazia querê-la mais e mais: se era o fato de não podermos ficar juntos - ou melhor, de ela não poder ficar junto comigo, afinal, quem tinha o dedo num anel não era eu - ou se era o fato de ela caminhar como se rimasse cada movimento com os meus olhos. era mais por aí, acho. eu olhava sua panturrilha levemente bronzeada e percebia uma suave flexão de músculos, como se ela estirasse os dedos dos pés, sabe como é? quando você goza ou leva um choque - dá no mesmo - e os dedos se espalham. pronto, era assim que a panturrilha dela fazia, mas só quando eu olhava. aí eu olhava pras coxas e o mesmo parecia acontecer, eu via tudo em câmera lenta: uns pelinhos brilhavam, bem tímidos, sob aquela luz perfeita do sol mediterrâneo às 19h38. e também tinha um negócio que eu não sei, mas vou tentar descrever como um leve tripudiar de carne, tirando sarro do meu olho - lembra que parecia uma rima? pois agora, descrevendo, eu tou achando que mais parecia uma dança - enquanto eu subia e descia, incansável e interminavelmente, meus olhos pra cima e pra baixo. era muito louco, meu olho subindo pelas coxas, começando logo acima do joelho e, numa cinematografia a la david fincher, sem cortes e bem simétrica, a coxa dela parecia que não ia acabar nunca. eu via pelos sendo eriçados, que balançavam em slow motion. meu deus, essa coxa não acaba, pensava eu, mas continuava lá, olhando, querendo que não acabasse, e pra cada milímetro de perna que sumia no frame embaixo, aparecia outro em cima e eu só conseguia me ver levantando as mãos, lentamente, norman bates fazendo escola em mim. e de novo, mais uma vez, a porra da dança, o tango dos músculos, o xote de cada tendão, de cada nervo, de cada porra de veia daquela coxa maravilhosa, me tirando pra dançar. e eu olhava. puta merda, como olhava. parecia uma hora infinita, uma relatividade absurda entre eu olhar e entre ela dar um passo. era só um passo, cara, só umzinho, e eu não tinha nem chegado na metade da coxa. mas foi aí, justamente nesse meio-termo, meio-campo, meio-tempo, que minha mente levou um murro: caralho, se liga no que tem no fim dessa coxa. aí, velho, eu perdi. perdi completamente o senso e o resto de inocência, de escrúpulo que ainda tinha, guardado há uma semana, e me levantei. eu juro. me levantei como num vídeo ao contrário de queda, saca? não fiz força nenhuma e nem lembro, na real, de ter feito força alguma. mas eu sei que levantei e encaixei minhas duas mãos na cintura dela como dunga na taça em 94 - acho que até hoje tem a marca dos meus dedos na lombar dela - mas sem aquele sorriso besta de campeão, tava mais pra um urro contido ou um gemido friccionado nos dentes. era uma coisa que eu não sei explicar, até porque nem deu tempo de se sentir muito. e acho que nem ela percebeu, porque em meio segundo eu já tava cravando os meus dentes no pescoço dela, vampiriscamente, sem me preocupar com porra nenhuma a não ser levantar minha mão esquerda pra puxar aquele pouco cabelo que ela tinha na nuca. eu vou parar por aqui, preciso bater uma punheta, fiquei até cansado.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

triunfo

sempre escrevi poesia muito melhor que prosa. as vezes que tentei escrever uma prosa, saiu um poema. minha mente funciona em versos e em metáforas e associações de gosto duvidoso. estou sempre escrevepensando alguma porcaria. e tem essa coisa de escrever sem pensar, também. simplesmente fazer os dedos funcionarem e aí eu acabo escrevendo e, depois, fazendo minha autocrítica pra tentar entender o que foi que eu escrevi.
a prosa, como a vida, requer continuidade. eu sou um péssimo continuísta. vou escrevendo, escrevendo, escrevendo, enquanto tiver o combustível da escrita ou do pensamento, tanto faz. se paro muito tempo, mais do que alguns poucos segundos, bum, foi embora. não me lembro de nada que eu tenha escrito em episódios. sempre foram de um tiro só. é uma merda isso. eu escrevo como quem bebe cana: às lapadas.