segunda-feira, 2 de novembro de 2009

amor com cheiro de preguiça

do que eu lembro mais: o sorriso do olhar

E esse tempo todo eu estive maquinando nosso (meu e seu) destino. Para fazer com que ele trabalhasse ao nosso (meu e seu) favor. Por vezes retesei as rédeas do futuro, dizendo: "eia, eia". E quantas foram as vezes em que eu fui capaz de saltar por sobre os obstáculos do presente? Algumas. E das situações em que ele quase me obrigou a afrouxar as cordas? Ou quando eu tive de segurá-las com quanta força eu nem sabia que pudesse ser capaz de ter. Na verdade a batalha foi uma verdadeira guerra de egos. De um lado meu Eu Futuro dizendo das flores do porvir: cabelos e nariz; pés e tornozelos; mãos e coxas; bocas e seios; sim e sim. Do outro meu Eu Presente improvisando defesas contra os ataques do amanhã, se defendendo arduamente dos afrontes futuros. Como? Sabe lá.

sábado, 17 de outubro de 2009

No entanto, ela é deste mundo

Descobri há algum tempo, e redescobri ontem, uma poeta paraibana. Não sendo curioso, sendo João Pessoa o que é, a fração de uma parte minúscula da geografia, ela e Erick se fizeram um poema-música. Não me espantei, mas também não fiquei imune.




( )

Não cuspa as
costas
do meu silêncio:

É dormente a carapaça.

Cuspa a cara, a cara
mesmo, sem rosto
um cuspe de urtiga,
que eu abro, da língua
as glotes até lamber
fumaça. E mereço.

Ainda que boceje a boca seca
de Justiça
(e saudade)

Nunca me lembro de molhá-la.

Desidratei a sensibilidade



a gente usa a linguagem como quer, né clarrissa? maiakovski ta por aí... nos outros.



( )

Muco de Humanidade
A poesia
Esgarça esborra escorre
E não é líquida.

Não tem carne ou trigo
Rosto. Sobrenome. Aura. Piedade.
Não tem cor nem é negra.

Devora e desonra sem
fome ou verbo.

Não tem verso
Futuro
ou camada de valência.

Apátrida no espaço
Pedra no sapato
do Tempo.

Poesia é o lado impenetrável
De dentro
Oco e surdo
Terrivelmente surdo.

No entanto
É deste Mundo.




taí, gosto porque ela se mete. meta na linguagem, mermão.




( )

Não é de dor o soluço
da criança.

Antes de revolta.

É que cedo lamentamos a liberdade
natimorta.




- Escrever frustra porque reduz. Embora possamos dizer muito, até mais do que se pretendia e explanar e destrinchar e esmuiçar e criar e conceituar e ensinar, cada assertiva conduz a uma nova dúvida.
- É rocha, Clarrissa. A poesia é um não-dizer do carai. Ou é um sim-dizer eterno?
- O tempo não escrito, (...) a palavra não dita, o pensamento disperso e nebuloso… são infinitos. Não têm limites porque sujeitam-se à (re)criação constante. É obra viva, latente na memória, enquanto houver memória. São múltiplos porque não têm nome (...)




( )

Amo em verso porque sou pequena.
Se eu fosse grande
Iria a campo e faria a guerra e morreria
de amor.






dá pra tu?




Clarrissa Yemisi: http://miolodepote.wordpress.com

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Insônia bruta, meu desassossego

Baluarte é som e é arte, com o perdão do eco. Em parte, é urbano e estradeiro. Em parte é de agora, de ontem e de amanhã. É som, é claro, mas é mais que som. É bom, é a rima do tom, da cor, de alegria e dor. Tem a amizade no meio, como quem sabe que quando canta, bota pra torar. É um molho de músicas, se manifestando através de músicos. Músicos? É bem além: faz a frente com Erick D'Almeida, o peito mole, o cabra bom, menino malemolente. Sente com a mente e o coração, e é de onde saem as porradas de afeição. Mermão, Erick não canta a canção, ele vem junto com ela, guiando cada pedaço de harmonia com os dedos de manteiga da terra, pelos ouvidos indo até o ser da gente. Do lado, Pedro Paz, que na levada do nome, traz a experiência atrelada na boca: quando sopra, é como se, ao invés de som, soltasse um fumo de ardor, e todo mundo pensa: que bênção de canção! Amém. Fazem a cozinha e a sala de soar, três cabras a mais. Thiago e seu violão malicioso, e Adam metendo o pau nos couros, junto com Raoni etéreo pincelando os sinos de vaca e intervenções percussionares. Sem essas três peças-boas, não tinha Baluarte, canção e muito menos arte. Só que vez ou outra essa invenção se reinventa e a rapaziada entra na presepada; nego de baixo passa por cima e vai pra violão, e tem maluco se atrevendo a soprar em flauta ou tamborilar em cavaquin. No balanço do groove, a base se aguenta com fé. No afoxé, na salsa, no xote e no samba; em tudo o mais que o Baluarte faz. Tem uma batida segurante, completamente pra dar o gás nas melodias dos rapazes da frente. Baluarte é pedaço de arte nesse pedaço de terra, Paraíba. Ainda bem!

sentado no banco do coletivo
a vida passa
cenário muda
sai fumaça escura do cano
do caminhão
expõe fuligem na vida cinza
picha cidades, distritos
conurbação

a vida pára segundos, segundos
sinal vermelho não mais que 30 segundos
espero e vejo a lata de tinta verde
despenca cai o tempo inerte
vermelho, vermelho
verde se faz

a vida segue tensão
amarelada
em frente passa o prédio
da namorada
o asfalto negro tornar-se multicolor
desce do coletivo
ao encontro com o amor

talvez encontre o sabor na contramão
o contraponto do amor
o desencontro então
verde vermelho
oscila do amor que cai
no despespero amarelo que a vida vai

(semaforizado, baluarte)

Myspace Baluarte: http://www.myspace.com/espacobaluarte

sábado, 26 de setembro de 2009

ah, os axiomas...

as coisas boas da vida deveriam ser como as más:
naturalmente





a língua portuguesa ainda é muito jovem pra certos conceitos.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Aliviado

a menina que passa
despretensiosa,
não sabe nem tem causa do mal
que faz

quantos já não sonham
em ter um pedacinho da beleza
da menina

oh! lívia,
me vieste na hora errada
conseguiste tirar minha paz
agora, me diz:
como este samba vai ficar?

quem tu és?
tu te mostras sem sorrir
que é pra não me ter aos teus pés

vai, que eu vou embora
a gente se atrasou, se atrasou
você nasceu bem depois
e a gente se desencontrou

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Então ela acendeu um cigarro e disparou, entre gargalhadas:

- Trepei! Trepei gostoso, ele me fodeu com uma vontade tão grande! Coisa que você nunca fez, seu merdinha! Ele me chupou como quem chupa uma puta, e eu gostei! Eu adorei quando ele me fodeu por trás e me chamou de vadia! E você com "meu amor" só me deixava enjoada! Você trepava que nem uma menininha, quando eu queria um macho puxando meu cabelo e fodendo minha boceta com força!

Silêncio.

- Você fuma?

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Lá isso é música

lá isso encanta quando canta: a voz parece que pede; arrepia, de poro em poro, pêlo por pêlo






vestido veste a perna
quadril estampado
rodado em diferentes
tons
sons têm ido, bem mais além

contorna a curva de cima
costela, peito aberto
perto demais do céu

lá isso é música
lá, lá
lá isso é música
lá, lá

palma da mão no pano
saia a girar
pernas não param de se
mostrar
se, se, se, se, se, se

pandeiro, percussão
conexão, pick up
nossa nova
mpb três

lá isso é o som
que sai à voz
entre os cabos e os dados

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

As partes de Camila




E ficou lá, parado sob os umbrais da percepção, de mogno ou quem sabe de alguma forma estranha de se pensar em alguém, por vezes - sempre - tão distante. E viu: a beleza das formas, das curvas e das folhas, e a mistura de cores, flores; viu-lhe os braços e pernas, esguias, e as voltas dos cabelos, os cachos sobre os braços; do pescoço viu-se as suas mãos em volta dos tendões, das veias e as sensações que sentiu. Descansou o olhar das madeixas e nas coxas deitou-o. Viu o altar vertical, e as pernas dela pelas frestas da janela viu claras, iluminadas, repousadas. Sentiu-lhe as mãos quentes sob os cabelos, sobre a nuca pousou a sua palma; nas dobras das costelas, sentiu-lhe a cintura em sua mão. Dos lábios, lépidos, fez-se sentir os outros lábios, tórridos, e soube: devaneios, na demora dessa espera, quer razão ou não, se fazem da emoção, sempre.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Extraño

eu canto um samba e maria vem de volta

Ah, te extraño, Maria!
por depois da curva
sempre eu me deparo com a chuva
tão fina que não cessa
começa a molhar a promessa
de um começo, onde começa
a saudade

Ah, que vontade, Maria!
das tuas pernas bonitas
atreladas aos quadris teus
e aos meus, por que não?
por que não sentir essa coisa
chamada de coisa
porque não se sabe o que é
ainda

Ah, tuas costas, Maria!
perdição das espáduas
omoplatas de linhas sutis
por um triz, não me vi
refletido na cor
dos teus ombros
refletidos no vão
do meu peito

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Diálogo de amores

"Se amar bastasse, as coisas seriam simples. Quanto mais se ama, mais se consolida o absurdo. Don Juan não vai de mulher em mulher por falta de amor. É ridículo representá-lo como um iluminado em busca do amor total. Mas é justamente porque as ama com idêntico arroubo, e sempre com todo o seu ser, que precisa repetir essa doação e esse aprofundamento. Por isso, cada uma delas espera lhe oferecer o que ninguém nunca lhe deu. Em todas as vezes elas se enganam profundamente e só conseguem fazê-lo sentir necessidade dessa repetição. 'Por fim', exclama uma delas, 'te dei o amor.' Não surpreende que Don Juan ria dela: 'Por fim? Não' - diz ele - , 'outra vez.' Porque seria preciso amar raramente para amar muito?'"

"Não há amor generoso senão aquele que se sabe ao mesmo tempo passageiro e singular."

(Albert Camus)

"Com ela aprendeu Florentino Ariza o que já padecera muitas vezes sem saber: pode-se estar apaixonado por várias pessoas ao mesmo tempo, por todas com a mesma dor, sem trair nenhuma. Solitário entre a multidão do cais, dissera a si mesmo com um toque de raiva: 'O coração tem mais quartos que uma pensão de putas.'"

(Gabriel García Marquéz)

"Afirmava a suas amantes: só uma relação isenta de sentimentalismo, em que nenhum dos parceiros se arrogue direitos sobre a vida e a liberdade do outro, pode trazer felicidade para ambos."

(Milan Kundera)

E então?

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

As partes de Marília

Amor pra torar na emenda





- Você não pode ser minha Ana. Você não se pintou. Ou pintou?
- Não... Não que me recorde... não que não fosse carnaval, não que eu já fosse adulta... não que eu não estivesse numa colônia de férias.
- Ou estivesse apaixonada e tatuasse o nome do namorado nas costas.
- Sim, sim! Aliás, que brega! Nunca faria isso. Você faria?
- Jamais! Eu gosto é de mulher.
- Não! Tatuar o nome de uma mulher!
- Ah! Bom... não. Não porque seria brega ou não, mas sim pelo símbolo da eternidade. Não me agrada.





- Você não quer um "amor eterno?
- Eu quero vários...
- Um, Mauricio, só um!
- Por que só um?
- Por que vários?
- Deixe-me ver como explicar...





- Sabe, eu creio que depois de algum tempo , o que era amor se torna algo diferente, uma espécie de amizade. Acho que o começo de uma relação é linda; toda sua beleza e intensidade. Não tenho interesse em transformar toda essa paixão inicial, numa relação de compreensão, de afeição, de amizade, enfim.
- Por quê?
- Porque eu gosto da paixão, do tesão, da loucura do início, e eu acho que mesmo com a idade avançada, isso é possível. Mas acredito que posso mudar de idéia depois e querer um amor pra vida toda... Mas, por ora, amar várias mulheres com a intensidade de sempre me parece mais interessante.





- Você acha que dar certo significa tempo de duração?
- Eu achava até você me perguntar isso.
- Estar com alguém, e não precisar de outra, me parece muito limitador... minha vida é muito mais do que a procura de um amor eterno. É, sim, a procura de amor, que eu posso encontrar em várias mulheres, e elas sempre terem sido meus grandes amores. Por que você achava... não acha mais?
- Porque eu acho que tempo de duração tem uma pequena relação com dar certo... meus relacionamentos não deram certo. Dar certo, para mim, é demorar... amar demorado.
- Mas essa crença você aprendeu a ter. Se eu perguntar o porquê você vai saber responder?
- Não. Mas por que acabar se está dando certo? Só acaba quando não se ama mais, ou seja, quando não dá certo.
- Sinceramente, Marília, eu acho que o não acabar é muito mais comodismo que falta de amor.
- Você pensa torto. Ou será que eu que penso torto? Eu não me acomodo, sempre acabei namoros (acho terrível) (dói de morrer) (mas, para mim, vale mais a dor de acabar do que o comodismo de viver).
- Eu admiro você, mas o que eu quero dizer é que, ao invés de se preocupar em viver aquele relacionamento do jeito que ele nos aparece, se costuma entrar numa relação olhando para a linha de chegada, olhando para o até que a morte nos separe. Por isso, a crença de que se acabou é porque não deu certo. Porque o fim é a morte, e não a vida. Eu acredito que o fim de cada relacionamento está nele mesmo, e não na minha idealização de futuro ou de amor, e que cada mulher que eu conheci me trouxe uma liberdade, um aprendizado, uma lembrança. Algumas deixaram marcas mais fortes, outras nem tanto.





- E o seu amor, como anda?
- Meu namorado? Foi um breve affair...
- Breve affair! Como você está se sentindo?
- Aliviada, com uma mistura de pena dele e de raiva de mim, por ter iniciado algo que eu sabia que daria errado.
- E o que fez você começar?
- Carência? Não sei sabia... Talvez um desejo profundo de ter alguém pra valer, amar demorado. Criancisse?
- Não, não é. Mas você não sabe o que é amar demorado, como pode querer? Acho que o que você quer é intensidade
- Sim, por favor, intensidade!
- Desejo, loucura, amor pra torar na emenda.
- Claro! Quero amar, Maurício! Lógico!
- Isso, definitivamente, não tem nada a ver com tempo.





- Amar pra torar na emenda. Por que é tão difícil?
- Quem disse que é?
- A vivência.
- Mas você nem terminou de crescer ainda.
- Porra, mas todo mundo já conhece amor pra torar na emenda. Eu não, mesmo faltando muito pra crescer. Eu quero o amor que ninguém tem, o amor que eu experimente e que ame pra torar. Amor, porra, você não sabe o que caralho é amor?





- Eu não faço idéia.
- Como assim? Você mentiu pra mim?
- Por que?
- Porque você é poeta, caramba. Porque você fala de amor. Quando você fala de Ana, você fala de amor. Ou não? Você é um solitário, certo? É, você é sozinho. Você nunca teve amor por uma mulher. O amor que você tem é pela vida... é diferente.
- As mulheres da minha poesia tem muito mais que amor. Amor nunca foi um fim para mim, por isso estou perguntando a você.
- Não sei o que é amor. Só queria conhecer.
- É isso que estou tentando lhe dizer. O amor não está lá, esperando para que você o atinja. Ele está em você, Marília; é você quem faz uma relação ter amor ou não.





- Eu nunca esperei que as pessoas me entendessem, mas desde que eu lhe conheci, você é a única pessoa que eu gostaria que entendesse o que eu digo.
- Às vezes entendo, noutras não... Eu insisto muito em lhe entender. Com você, eu quero a todo custo entender. Mas depois de entender não importa. Sabe como é? Com você eu sinto. É melhor. Eu entendo mais com você, sentindo, entende?
- Você tenta me decifrar, é diferente.
- Não... eu quero entender também. Mas entender e lhe decifrar às vezes perde a graça. Aí eu sinto; só sinto. Por isso você sempre é bonito pra mim, porque eu respeito o meu não entender por você.





- Adoro quando você mente com graça.
- Você acha que eu minto agora? É, é mentira, sabe... mas é sincera.





(Marília é Maurício em poesia. E cada segredo que o medo da descoberta possa vir a trazer, é uma nova tentativa de se fazer entendimento. Auto-entedimento)

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

As partes de Maria




Minha poesia é feita para as mulheres. Para o sexo ou o amor, não importa. Minha poesia não tem a pretensão da Grande Poesia e nem a arritmia da adolescência. Tem, sim, uma carga absurda de afrodisíacos naturais, que jorram dos meus dedos em direção às teclas. Por mais que eu tente, não consigo dissuadir a poesia que eu sinto, dos poemas que eu faço. Eu não faço poesia para homenagear as mulheres. Conversa. Eu faço poesia para que as mulheres me homenageiem. Meus poemas são tentativas de despudor. Quero que meus poemas levantem a saia das mulheres e que, letra por letra, elas se dispam por completo. Eu me despi. A pretensão dos meus poemas é tocar as mulheres. Tocar, e mais nada. Um toque, eu me satisfaço. Mentira. Eu não me satisfaço. Com um toque eu quero tocar mais, e quanto mais eu quero tocá-las, mais elas desejam ser tocadas. Porque as mulheres sabem que com elas ou toca ou não toca. Eu toco.




sei apenas das pernas
[só quero saber delas
as duas (tuas)
entrecruzadas

formatação incontrolável de sinestesia:
onde elas se cruzam, estão meus olhos
com toque, com gosto

mas nas minhas mãos,
uma por uma,
incendiando as minhas palmas
de suor

(duas) tuas pernas gemem.

sábado, 23 de agosto de 2008

"Adeus ó Esteves!"

( )

sou um deserto de homem
e provo a inconstância das estrelas
a cada passo em direção ao meu túmulo

sou um deserto de homem
canto a liberdade através da alma destas palavras
mas não sei da minha

sou um deserto sem homem
destas linhas sobrarão nada mais que
signos retorcidos numa sucata em poesia

sou um homem no seu deserto
não provo mais que a minha estupidez
ao me lançar sobre este abismo incongruente de declaraç

cansei

meu coração é maior que eu.

domingo, 10 de agosto de 2008

as nossas conversas não eram simples jogadas de pingue pongue. diferente de como quando acontecia com ana emília, eu agora pergunto as coisas para nina, não apenas interessado na resposta, mas realmente querendo saber se aquelas palavras que eu estou ouvindo são de fato os sentimentos dela. mais: eu a questiono para saber como ela está se sentindo em relação aos fatos da vida - mesmo eu tendo conhecimento ou não. com ana emília, meus questionamentos tinham, exclusivamente, a finalidade única de ter, nas respostas dela, parâmetros para meus próximos questionamentos. eu perguntava a ela como ela se sentia, mas não porque me preocupava com o bem estar da sua mente, corpo ou coração, mas sim porque eu não queria lhe dar uma boa - ou má - notícia sem antes saber como estavam suas condições.

domingo, 20 de julho de 2008

As partes de Maurício

Minha vida é como uma folha seca
Tem uma cor tardia e está prestes a desprender-se.
Em minha vida é sempre outono,
E dele sou fugidia com a imaginação verde,
Resistindo em minha estrutura frágil.

Minha vida é como uma folha seca
Partindo ao encontro do chão ou do infinito,
Partindo até onde o vento permitir
O regozijo da liberdade.

Minha vida voa depressa e despedaçada
E em cada pedaço carrego
O fosco de minhas lembranças pueris…

É evasiva, nostálgica e está em pedaços!
A minha vida: FRAG-MEN-TOS

(Gabriela Arruda)


A folha de arruda, que canta sobre a fragilidade da vida, percebeu: as partes dela e as de maurício são duas partes em fragmentos.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

As partes de Teresa

é a pele.
primeiro a visão do vão dos seios. os antebraços nus, a dobra da cintura dos quadris. o aspecto da barriga e até por transparência que se veja o busto. das coxas e das pernas, a longitude e o desvario do vazio por entre. dentre elas, certas, gestos. gosto da pele.
depois o cheiro do pescoço, a bênção do aroma da afeição. ou não. com o pescoço aparece o cheiro da curvatura do portrás. exala o olor das costas. costas? se conhece uma mulher pelo cheiro das omoplatas. quando arrebata, não importa o trato, é fato: se é de uma mulher enquanto não se sabe o que ela tem. a busca pelo segredo, pelas tendências dos nervos, não é mais que que os segundos do gotejo. primeiro, de fora pra dentro, no descompasso, a divisão do lasso interno e do pulsar externo, e depois de dentro pra fora, intrépido, rompendo a consciência, com a pura ciência dos homens, o sabor.
ah, o sabor.
a se saber mais além...

terça-feira, 8 de julho de 2008

pensar poesia

a linguagem está sendo escamoteada pela estética. deformada pela informação desnecessária, onde tudo é cópia de tudo. à parte o conceito de originalidade, a poesia da 'nova geração' parece mais preocupada em levantar a bandeira do 'quem sou eu'. o trabalho de linguagem é um retorno ao tumulo de baudelaire ou, vai saber, uma declaração de amor a chico. qualquer um deles.
não me excluo, e não falo em terceira pessoa; muito menos alheio. eu sou um deles, e estou no meio dessa torrente de pseudo poesia (pra quem sabe o que é poesia). se poesia é tudo e mais aquele pouco escondido nas entranhas do subconsciente, disfarçado de alterego, então onde é que a linguagem se estabelece?
eu vejo um monte de jokers pela rua, disfarçados de poetas. bebendo, fumando, se regozijando. e de vez em sempre relatando as aventuras egóicas nos diários virtuais. ou, quando não estão na rua, estão nas suas camas, fazendo guerras imaginárias e lutando com ventiladores, como se fossem moinhos. pescando metáforas nas quatro paredes do quarto.
e, novamente, lá estou eu, disfarçado de gente. me fazendo crer que se a poesia paraibana está dividida no antes e depois, então o que resta é uma horda de jokers. saltitante nos 20 e, depois dos 30, se tornando jornalistas que ganham um punhado de amanhã, para escreverem sobre tudo o que passaram, e esperam ver no futuro dos poetas da PB.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Eu não sei fazer samba

a meninice brincou nos olhos de Teresa, lagarta listrada.

Eu não sei fazer samba, mas eu faço
eu não sei dançar tango, mas eu danço
eu não sei amar de menos, e eu amo
eu não sei chorar por ti, mas choro
eu não sei roubar um beijo, mas pra você
menina, eu dou um jeito
e pulo o teu muro, eu juro
quebro parede, porta, janela
não quero saber, porque não sei
o que me impede de você

você me ensina a chorar, e eu choro
se você mostrar como amar, eu amo
mas não me venha com a conversa
de me dizer como esquecer
pra que eu não saiba o que fazer
com o amor
que você me ensinou a ter

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Nossa Senhora das Neves

para Erick D'Almeida

eu cruzo a beira-rio e meu peito se transforma
são aguaceiros derradeiros, arruaceiros
em tambaú meu peito some mais e mais
mergulho em teus mares, terra e sais

não me contive nos caminhos dos amores
nem desgastei nas veredas minhas dores
no varadouro acordei tuas putas mortas
com as mulheres da areia dei mil voltas

na lagoa onde os meninos perdem sempre
e onde os homens sonham vida que não têm
parahyba, tu não tinhas dessabor
e hoje afogas no esgoto o teu amor

frederica meu amor, minha querida
estavas tão longe, e quanto eu te queria!
eu morro no teu nascedouro, sanhauá
cada dia eu digo: filipéia hei de amar

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Ana você se pintou

para Ana, samba. só para Ana.

Ana
me diz com quais
pernas eu vou andar
antes eu caminhava
com o teu passo, eu andava

Ana
me diz qual é
o jeito de eu respirar
antes eu vibrava
agora só sei suspirar

Você pintou seu corpo
com alguém que não sou eu
você pintou seu corpo,
parece que me esqueceu

Ana você se pintou
em outros quadros
você se pintou
em outras fotos
você se gravou
em outras camas
você se mostrou