segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Cem metros de pernas de mulher

Falar com você me faz bem - tem me feito bem - ultimamente. E eu sinto que pode continuar a me fazer bem, no decorrer do tempo.
A tua psicodelia me atrai, eu gosto dela. Acho que essa diferença sua - de você para mim - e minha - de mim para você - deva ser um ponto a nosso favor. Sabe aquela coisa dos opostos? Mas nem somos opostos, digamos que somos caminhos diferentes seguindo para o mesmo lado. Linhas retas que se cruzam no infinito - como diria um daqueles escritores gays do sul.
Talvez eu devesse parar de falar nisso.
Hoje eu vi uma coisa que me lembrou você - vejo sempre: Eu estava no ônibus, sentado próximo à frente, pensando em qualquer coisa sobre livros, talvez Gabriel García Marquez - é engraçado porque eu não costumo falar o nome dele sem o primeiro nome.... García Marquez, como tanta gente aí faz - indo de volta para casa, e nas imediações do Castelo Branco, uma mulher entrou pela porta da frente. Mas não era uma mulher normal, ela tinha cem metros de pernas! Era uma mulher extraordinariamente desformada, Lígia. Suas pernas beiravam o céu, mas o restante do seu corpo era imperfeitamente normal, com as mãos e braços no lugar, a cintura, o busto, pescoço e rosto; cabelos também. Ela subiu as escadas, dobrando as pernas como uma aranha bípede gigante, e foi a visão mais estranha que eu já tive na vida: as penas enormes e o corpo minúsculo dela, bem acima, e como ela me olhou de lá, com um olhar doce, angelical e triste, muito triste, como que se dissesse "eu não tenho culpa de ser assim, eu nasci com essas pernas e serei assim para sempre, por favor, pare de me olhar", e foi quando eu me senti triste por ela, e desviei os olhos para a rua, para não ver mais a mulher e suas pernas de cem metros. Cem metros de pernas de mulher, que me lembraram você e a sua desvairice esverdeada, fluindo em brilhos ofuscantes dos seus olhos, Lígia.