domingo, 9 de setembro de 2007

A leveza

A primeira vez que eu a vi - há 4 dias de se completar um ano - eu estava com uma cicatriz recém-formada próxima ao olho esquerdo e há muito não cortava os cabelos. Foi durante a manhã radiante de suas aulas na Escola de Estudos Técnico e Escolar Médio, na terça-feira de um setembro presente ainda. Eu acompanhava um amigo em algumas horas de ócio, durante o conserto de sua moto numa oficina próxima, e resolvemos gastar o intervalo - entre o "qual o problema" e o "não há conserto" - de 6 horas conhecendo o pátio da escola, o refeitório, a biblioteca, o campo e - minha mente se alegra - os cabelos avermelhados e os longos braços esguios dela.
Andava como elástico, com uma perna na frente e outra adiante, e tão leve era o passo dela que o vento pareceu se aquietar enquanto ela deslizou na minha frente. Ora, eu estava a meros dois metros, mas se até as vitrines do impossível são intransponíveis por não medirem mais de dois centímetros, como eu poderia me atrever a ultrapassar essa fronteira criada pelo acaso? Não. Ela estava lá com os olhos fixos à frente, e sequer me notou. Eu lembro de ter pensado - naquela manhã distante de setembro - na cor dos olhos dela: iguais ao mar de Tambaú num dia quente ensolarado - como hoje. Passou por mim deixando atrás de si um rastro de tristeza, como eram as costas dela, tristes. E a curva de suas omoplatas me trazendo a lembrança do que eu supus não poder presenciar jamais; os cotovelos virados para dentro, no ritmo do balançar das suas pernas. A textura do uniforme branco, sob as minhas mãos, e o perfume do seu pescoço.
Inebriado pela visão daquele anjo, eu me dirigi ao refeitório para constatar, com uma nostalgia colombiana, que ela estava lá. E foi quando ela sorriu pela primeira vez. No mesmo instante eu pensei: "este sorriso há de se eternizar na minha memória". Não, não foi como se eu tivesse pensado, mas como se eu tivesse sentido ela sorrir tão dentro de mim que era eu sorrindo, era eu apontando o céu e dizendo "que dia lindo", era eu me virando bruscamente só para dar de encontro com meus livros e pedir desculpas, e por uma instante de fração de segundo visualizar os meus olhos perplexos, mas não antes de se virar sem ouvir um atônito eu dizendo "você é linda".

Um comentário:

paulo henrique disse...

O dia do CEFET eu lembro, mas não lembro dela não Dan...