sexta-feira, 30 de maio de 2008

Convite


a inconstância das tuas mãos
- poros, peles, partes
resguarda tesouros inqualificáveis

em mim teus dedos se fazem mil
queimando à força das utopias

parece que foi ontem o teu tocar
que me tocou e eu me esqueci em mim

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Diálogo do amor a um

eu: te amo
tu: me ama?

sábado, 17 de maio de 2008

Uma canção que fale da minha cria

De forma alguma eu vou cantar
no espaço de uma travessia
- entre o miramar ou na
baía do almirante -
a canção

eu não estou aqui para
satisfazer
- fazendo as vezes de leopardo -
uma saga eterna de grilhões
atordoados pelas er

não!

as...

decerto irei à poesia
na travessia da epitácio
- como quem navega ao longe -,
lançar, para além da vida,
estilhaços de poemas

para que porventura alguém um dia
- um negro abissal em moçambique
ou um corsário de plymouth,
talvez maria antonieta -
venha me dizer que fui poeta
e que cantei, menos
pela arritmia alheia,
que pelo medo no porvir,

uma canção que fale da minha cria.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

falta amor estes dias, mas há tanto em mim.

o amor, em mim, é como um canário.
que canta em solidão,

mas se cala acompanhado.

domingo, 4 de maio de 2008

Sobre a morte e outros domingos

Eu passava na frente de uma casa de velórios, cabisbaixo, como sempre fazia nesses dias. Via as pessoas chorando, lamentando a perda de um ente querido - pai, mãe, avó - e tentando se consolar - um ao outro. Eu me detive alguns instantes, próximo à arvore - que fazia sombra sobre meu rosto - e fiquei olhando aquela cena. Um pouco ao lado, numa sala mais separada, havia um caixão de mogno escuro, ladeado por flores brancas e amarelas, com velas e uma coroa de flores na cabeceira. Eu me aproximei e vi que não havia ninguém, exceto o corpo levemente perfumado por margaridas. Observei com atenção a fisionomia do morto. Ele tinha um rosto arredondado, um pouco obeso, com olhos pequenos. As sobrancelhas estavam preguiçosamente arqueadas, como de um espanto suave. Por baixo do nariz redondo e grande, um bigode proeminente zelava os lábios finos, colados. À primeira vista não se notava, mas quando eu pus a mão sobre a borda do esquife e olhei atentamente para sua face, eu notei que o morto estava triste e solitário. Não era a solidão dos mortos, da eternidade. Era a solidão dos vivos. A falta de calor, de mãos sobre as mãos, de abraços amigos, de beijos carinhosos e afagos de carência. Eu vi a falta de humanidade na morte do defunto. Dei meia volta e fui embora, relembrando a nostalgia dos meus tempos de rapaz, e pensei:
- Morrer num domingo deve ser mais triste que a própria morte.