quinta-feira, 9 de julho de 2026

As cartas para Ana 22/∞

Até hoje, Céu me diz que você vai lá, Ana. Agora me diz, Ana, me diz que poder maléfico é esse que você tem que você só vai lá quando eu não estou? Como é que você sabe? Quem fala pra você? É uma câmera? Me fala, Ana, como é que eu nunca encontro você lá em Céu?

Mas também, veja só, O que é que eu faria se você aparecesse lá enquanto eu estivesse sujando minha camisa com as gotas de Original que sempre escorrem da minha boca quando eu bebo? Garoto, a tua boca tá furada, foi o que você me perguntou, a primeira, primeiríssima coisa que o martelo, a bigorna e o estribo receberam de você e até hoje não se recuperaram (e agora eu escuto você colocar o dedo na boca como quem vomita, rindo da minha cara, soltando fumaça me olhando de lado, a cabeça inclinada para cima, você amava me aperrear, você rindo porque eu escrevo muita merda, mas você amava) e tenho certeza que até hoje mesmo eles não se recuperaram, ficam lá jogando as suas incontáveis sílabas e letras e onomatopéias, uns pros outros, meu deus como você falava, estava sempre falando, você absolutamente nunca parava de falar e isso me trazia uma paz que eu nem sabia que precisava, eu só soube depois, é claro, Ana, eu só entendi depois, muito depois mesmo que enfim,

Aí eu não sei o que ia fazer se você me aparecesse lá em Céu enquanto eu estivesse babando, eu ia - tentar - limpar dando uns tapinhas inúteis na camisa estampada, olhando pra baixo formando a papada que você gostava de beliscar e aí quando eu olhasse de novo pra cima eu ia te ver sentando na cadeira em frente, se largando como se tivéssemos combinado de você aparecer como quem nunca pegou o 511 pra nunca mais voltar. Eu sei, Ana, eu sei exatamente como ia ser, Essa cerveja tá quente, Céu, você ia dizer, E cadê meu copo, você ia perguntar, Quem é que eu tenho que chupar pra tomar uma cerveja gelada nessa birosca , parece até que eu tô vendo, Ana, parece até que eu tô sentado aqui em Céu, já embriagado, olhando pra caixa Wattsom arrebentada, gemendo um roquenrol qualquer. Parece até que eu tô arrodeado de bitucas e dois copos quebrados, parece até que eu tô deixando a cerveja esquentar porque tô vendo o seu anel de lata no polegar enquanto você levanta um copo na minha frente, você quem me ensinou a beber, lembra Ana? Rio, porque se eu dissesse isso você ia dizer E tu nunca aprendeu, garoto, e ia gargalhar e depois me dar um cheiro no cangote puxando meu pescoço como uma criança.

Ana, é melhor que você nunca apareça nas Quintas e Sextas mesmo, é melhor que você não me encontre entre as quinze e dezenove horas - nas quintas - e entre as dezoito e vinte e duas - nas Sextas - é melhor, Ana. Eu vou ficar por aqui, vou continuar aqui, babando Original e fumando meu tabaco, vendo você dançar flamenco - no karaokê se escuta Baila, Baila comigo, mexendo os dedos com uma castanhola imaginária, jogando os cabelos pra cima enquanto Céu bate palma e diz que você é a mulher mais estonteante daqui até São José de Mipibu.