quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

As cartas para Ana 8/17

19/07/2007

Sinto falta de conversar com alguém.
Desde que você não lembra mais de mim, eu sinto isso, Ana.
Eu sonho às vezes que estou num corredor, com tochas medievais que vão se apagando a cada passo meu. Quando eu paro, elas continuam acesas. E eu penso que se ficar parado muito tempo, talvez as tochas que se apagaram atrás voltem a se acender. E eu fico muito tempo parado assim. Percebo então que eu não devo ficar parado, mas sim dar meia-volta e andar em direção ao começo do corredor. Mas as tochas não se acendem, e eu fico assustado, Ana. Eu começo a correr, a correr mais rápido, e de repente eu caio. E acordo.
Acordo ao lado da cama, no chão. E sinto o gosto do sangue na minha boca. É ruim, me traz más lembranças. Me levanto e vou ao banheiro. Ofuscado pela luz, tateio em busca da torneira e minhas mãos encontram nossa escova de dentes. Ana, eu não tive coragem de jogar fora a sua escova, mas a minha, sem cerimônia, eu joguei pela janela em cima de um opala azul. Fiquei com a sua escova, a sua boca, o seu gosto, Ana. Há noites em que eu não escovo meus dentes, mas fico deslizando suavemente a sua - nossa - escova na minha língua, sentindo de volta os sabores de antes, quando você a usava, e eu ficava olhando. Tudo era tão mais simples, Ana, e eu não sabia. Agora que as tochas se apagaram, eu percebo como a minha estupidez afetou nosso futuro - meu presente.
Depois de acordar no chão, me é muito difícil pegar no sono outra vez. Eu lembro de quando nós dois deitamos assim, de frente para a janela porque a lua iluminava os galhos do ipê amarelo. Eu deitava no seu braço, bem no ombro, e acariciava a sua barriga, enquanto você alisava os meus cabelos.
Ana, naquela noite eu me senti imensamente triste. Porque foi naquela noite que eu percebi que havia algo de errado. Que nós dois não éramos nós dois, mas sim um eu e um você. No dia seguinte você foi embora. O que mais me deixou triste, Ana, não foi a sua falta no lençol, ou suas roupas - largadas na cadeira eram tão familiares -, nem seu pente de madeira, ou seu bom-dia sem palavras, me olhando com os olhos miúdos, apertados. Não. O que mais me deixou triste foi a chave. Ana, você deixou a sua chave em cima da mesa, como num crime em que se deixa a arma. Você me matou a sangue-frio, e eu só consegui imaginar você retirando cuidadosa e calculadamente a sua - que era tão nossa - chave, e colocando sobre a mesa, como que dizendo: "não vou voltar".
E não voltou.
Já se passou uma vida e você não voltou. E não vai, mesmo.

0 comentários: