As cartas para Ana 7/17
1/12/2006
Ana,
Estou doente.
Não sei, talvez tenha sido a realidade da realidade que me socou quando eu menos esperava, ou talvez eu tenha dentro de mim alguma coisa estragada, não sei. Só sei que depois de todo esse tempo, você foi a única pessoa em quem eu consegui pensar quando eu vi a escuridão e a luz, Ana.
Eu não sei o que aconteceu, eu estou perdido aqui nesta cama de hospital e as luzes fracas, e os móveis, e os copos, e as portas e janelas estão e não estão aqui. Ana, o que está acontecendo comigo? Eu não queria me sentir assim, eu não quero me sentir assim; tem algo errado, Ana.
Me desculpe por lhe incomodar com as minhas queixas, depois de tanto tempo - e mais ainda quando você menos gostaria - mas Ana, eu só lembrei de você.
Eu sei que ele provavelmente vai saber da existência desta carta, eu sei que você não deve fazer segredos disso, mas por favor, Ana, por favor, não deixe que ele saiba do nosso passado, da nossa mentira juntos, da nossa vida juntos, de tudo o que passamos. Não é medo, é egoísmo, Ana, é puro egoísmo. Eu não acho que ele tenha o direito, por mais que ele divida com você uma casa e o seu ventre faça parte dele, e os mesmos dedos dividam os anéis, eu não acho que ele tenha direito algum sobre nosso passado.
Ana, eu estou doente, e nada do que eu digo faz sentido. Eu confundo os nomes das enfermeiras - e reconheço isso no mesmo instante, mas não corrijo - , e elas fingem que são quem eu chamei e têm pena de mim. Ana, por deus, as pessoas têm pena de mim.
Talvez seja por isso que eu pensei em você. Ninguém jamais falou para mim as coisas que você falou, nem foi para mim o que você foi, nem me tratou - bem ou mal - do jeito que você me tratou. Ana, você foi embora e levou de bom o que eu tinha, e agora as pessoas têm pena de mim. Não, me desculpe, eu não quis culpar você pelo que sou hoje, eu não quero culpar você pelo que sou hoje, me desculpe. Eu só queria me fazer entender, Ana, me desculpe. Eu estou doente, mas isso não me dá razões para fazer isso com você.
Ana, eu estou doente e estou triste. Mas mais do que isso, Ana, eu estou triste por saber que a minha tristeza não afeta ninguém. Absolutamente ninguém. Você foi a única pessoa que se dispôs a oferecer o seu colo pra eu chorar, e eu chorei, Ana, eu chorei, chorei, chorei, e é por isso que agora eu estou aqui, nesta cama enorme, com este cheiro horrivel, desejando chorar no seu colo, nem que para isso eu tenha de abandonar este lugar terrivel e morrer chorando em cima de você.
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